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No ritmo da sabotagem.

Por: João Melo Farias

João Melo Farias Poeta e indigenista.

O boizinho da promessa

João Farias

No ano de 2.009, nas minhas andanças de trabalho indigenista pelo Alto Rio Solimões, encontrei um ilustre parintinense, radicado na localidade rural conhecida como São Francisco do Muriá, rio Uati Paraná (Uati Paraná, na realidade é um paraná, mas foi grafado erroneamente na internet como rio e sem a U inicial), município de Fonte Boa, estado do Amazonas. Nesse local existe uma fazenda de gado batizada como “Ponta da Gaivota” de propriedade do ilustre conterrâneo, onde produz leite, queijo e carne vendidos nos seus açougues São José I na cidade de Tonantins, e o outro, São José II na cidade de Jutaí.

Nosso considerado responde (dado a licenciosidade poética) pelo batismo de João de Lima Velho, mas foi agraciado com o apelido de “Língua de Sogra”, pela exímia capacidade de falar bem (mal), óbvio, das sogras de um modo em geral.

Um belo dia Língua de Sogra acordou com a perna esquerda até a altura do quadril totalmente adormecida, que o impossibilitou de levantar da cama e andar. Sua esposa, dona Nusa, muito católica, andava com um rosário entre os dedos, e mesmo quando estava no caixa do açougue conferindo dinheiro não o largava por nada. Ao fim do dia, antes de ir para casa, passando em frente à igreja devotada a São Francisco, entrou, ajoelhou-se e começou a falar perante à o magem do Santo:

  • São Francisco, sei que o Senhor gosta mais de animais do que de gente, mesmo assim, vim pedir pela saúde do meu marido, João Velho de Lima, que não está podendo andar. Preciso que o Senhor abençoe a nossa casa, nossa fazenda e principalmente os animais que lá criamos: patos, galinhas, marrecos, carneiros, bodes, bois e vacas; mas o meu marido é o animal mais precioso, ele é o esteio de nossa casa e da fazenda; temos dois filhos que criamos com muito amor; seis empregados que dependem dessa fazenda para sustentar suas famílias; eu não sei cuidar de gado, só entendo do caixa do açougue, então lhe peço: fazei com que meu marido volte a andar, em troca eu prometo vou oferecer o novilho mais bonito da fazenda para ser leiloado durante a festa em sua homenagem no próximo ano.
    Ao voltar para casa comunicou ao marido a promessa feita no altar de São Francisco, que a repreendeu:
  • Deixa de ser besta mulher, onde já viu um pedaço de gesso fazer eu andar. Vou para Tefé em busca de um ortopedista do quartel dos milicos, eles devem ter um dos bons, pois lá tem um hospital grande e com certeza, devem ter exames modernos e bons remédios capazes de fazer eu voltar a andar. E depois, você falou com um leva-e-trás do Senhor. Você deveria falar era com o dono dos porcos, o Todo Poderoso, Deus!
    Ela retrucou:
  • Quando você voltar a andar, vai agradecer.

Passado duas semana o homem voltou a andar, sem tomar medicamentos convencionais e nem chegou a ir a cidade de Tefé. Na realidade tomara somente “banha-de-cobra”, todas as noites antes de dormir, a pedido do velho vaqueiro Carlos André, que nas horas vagas se ocupava fazendo “puxação de desmentiduras” na cabocada, inclusive, no patrão.
Dona Nusa, vendo o progresso da saúde do seu marido, chegou bem pertoinho dele e com carinho sussurrou no seu ouvido;

  • Estás andando, não estás? Agora é hora de ir lá na fazenda e escolher um novilho bonito para pagar a promessa que eu fiz por você a São Francisco.
    Meio emburrado ele foi. Ao chegar no curral chamou o velho vaqueiro, Carlos André e perguntou:
  • Seo Carlinhos quantos bezerros novos nós temos hoje?
  • 16, patrão.
  • Todos estão bem de saúde?
  • Não patrão, tem um que a mãe enjeitou, não está pegando a úbere da vaca. Acho que não escapa. Estou lhe dando água com açúcar e sal, na marra, para ele não morrer desidratado.
  • Mostra-me ele.
    Ao ver o bezerro magro, dois dias sem mamar, não tinha forças para se levantar, ele não vacilou:
  • É esse que será oferecido a São Francisco. Passa carrapaticida e coloca ele junto a outra vaca parida boa de leite. Enquanto ele não pegar as tetas, mete a mamadeira no bucho dele, ele tem que escapar pois é o prometido a São Francisco e vai a leilão do Santo em setembro do próximo ano, lá na cidade de Jutaí.

O velho vaqueiro não se poupou no trato com o bezerro, que, correspondeu para confirmar a fama do Santo dos animais, que obrou um milagre. Com muito esmero durante todo o ano, o bezerro se transformou num novilho bonito, forte e mais garboso da Fazenda Ponta da Gaivota. O vaqueiro Carlinhos, todo orgulhoso, mostrou o bezerro ao patrão, que quando viu o bezerro, exclamou!

  • Esse é aquele bezerro fraquinho, que não pegava o peito da mãe?
  • Sim senhor.
  • Esse São Francisco, protetor dos animais, é do caralho mesmo. Sem dúvida é o melhor garrote do plantel.
    O bezerro se tornara novilho e era também o campeão de peso, que é a coisa mais importante numa fazenda de gado.

Com a proximidade da festa em setembro apareceu uma balsa/boieira de um regatão comprando gado branco para levar para a cidade de Tabatinga. Quanto o homem viu o garrote, falou:

  • Quero esse também, quanto custa?
  • Seo Carlinho falou, esse o patrão não vende. Foi prometido a São Francisco e vai a leilão na festa do Padroeiro.
    O comprador não perdeu a linha. Esperou pacientemente o patrão Língua de Sogra chegar a beira do campo. Quando este chegou, encostou-se nele e falou-lhe ao pé da orelha:
  • Quero aquele também, (apontando-o com o beiço), você está me vendendo só gado velho e magro. Preciso de um garrote novo e bonito para vender como reprodutor lá para as bandas das três fronteiras (Colômbia, Peru e Brasíl).
    Língua de Sogra olhando languidamente para o novilho disse:
  • Esse não tem preço. Ele é do Santo. Promessa de minha santa mulher, Nusa, a São Francisco, para eu voltar a andar. Voltei a andar, portanto, vou pagar a promessa.
    O comprador de boi, argumentou:
  • Patrão, esse boi não é do Santo? Ele não vai a leilão na festa do padroeiro? Então, qual a diferença de você me vender e repassar o dinheiro todo para a igreja? Não vejo dificuldade nenhuma. Depende de sua vontade de fazer o negócio. Outra coisa, paguei 3.000,00 (três mil reais) pelos demais animais; esse eu pago 5.000,00 (cinco mil). É pegar ou largar.
    A quantia era tentadora e o patrão, num raciocínio relâmpago, olhando para um galo garnisé que bicava ração no terreiro.
  • Eu vendo, porém com a seguinte condição. Você tem que levar esse galo com o garrote e me dar um recibo específico dessa transação.
    O comprador, sem entender, perguntou:
  • Não entendi, explique melhor:
    O patrão emendou:
  • O galo eu vendo por R$ 4.900,00 e o garrote por apenas R$ 100,00 quero dois recibos, um para o galo e outro para o garrote, individualmente, especificando os valores de cada um. É pegar ou largar!
    O comprador mesmo sem entender, perguntou:
  • Eu passar o recibo? Onde já se viu? Eu sou o comprador, quem emite os recibos dos valores é o senhor que é o vendedor.
    O quê preciso fazer para em levar o boizinho?
  • Pagar os valores que estou pedindo, assinar os dois recibos e embarcar o boizinho.
    O comprador mesmo relutante concordou e assim fez. Pagou, assinou os recibos, embarcou o boizinho do Santo e subiu o rio Solimões.

Quanto o patrão chegou na cidade de Jutai, chamou Nusa, sua querida esposa, mostrou-lhe o recibo de venda do boizinho e entregou os R$ 100,00 (cem reais) e lhe disse:

  • Vai lá na igreja, paga a promessa que você fez a São Francisco. O Santo não vai reclamar com certeza, mas o padre, louco por dinheiro, pode não gostar do valor. Se ele reclamar esfrega o recibo na fuça dele.

Invoco como testemunha deste fato o vaqueiro Carlos André Gil, telefone 97 98xxx- xx24

João Melo Farias
Ixé Tupinambarana

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