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Negritude no Amazonas

Por: Robério Braga

Membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), advogado e ex-secretário de Cultura do Amazonas

Jubileu de Prata

Teatro Amazonas

A 25ª. edição do Festival Amazonas de Ópera é oportunidade para contar sua origem, crescimento, fortalecimento e longevidade, e como esse festival se firmou por estar no Teatro Amazonas e pela qualidade artística. Espero não cometer omissões e injustiças – e já me penitencio -, mas a verdade é esta, contada para evitar distorções que o esmaecer dos anos permite a quem não esteve no banquete inaugural.

Era fins de 1994 quando o vereador Omar Aziz, meu colega de Câmara, convidou-me para conversa com Amazonino Mendes, recém-eleito governador. Na ocasião levei comigo um Plano de Trabalho que reunia cultura e turismo, mas findei nomeado Secretário de Comunicação. O sonho de promover revolução na cultura e nas artes foi adiado até janeiro de 1997 quando fui convocado a colocar meu Plano em prática, criar e instalar a Secretaria de Cultura e Estudos Amazônicos.

Começava, assim, a realização dos sonhos de abrir oportunidades aos talentos, e, sobretudo, restabelecer a função original do Teatro Amazonas: ópera. E tê-la como impulsão para outros projetos. O que eu não sabia, ainda, era que um jovem violinista alemão carregava desejo parecido: fazer ópera no Teatro no meio da floresta, e andava procurando apoio para a sua aventura, sem êxito. Disso tomei conhecimento pelo maestro Zacarias Fernandes, e, dias depois, por Inês Daou, diretora do Teatro. Resolvi, então, aprofundar a conversa com Michael Jelden, o alemão. As coisas fluíram lentamente, mas, em 21 de abril de 1997 foi aberto o “1.º Festival de Manaus” para o qual o Estado foi decisivo, mesmo com despesas modestas. E lá estavam, com grande empenho, o Coral do Teatro Amazonas e técnicos do Teatro. Tudo o mais era importado, mas as diretrizes de nosso Plano foram impostas: óperas populares, ingressos baratos, espetáculo ao ar livre. O texto de apresentação do governador falava em um século novo que redimiria o anterior que fora de silêncio da ópera no Teatro. Ele tinha razão, mas até ele duvidou que se conseguisse, porque o desafio era enorme.

Em meio a isso trabalhávamos para criar a Amazonas Filarmônica, o Corpo de Dança e profissionalizar o Coral do Amazonas como corpos estáveis do Teatro. O projeto foi desenvolvido por Cleia Vianna e Beto Sá Gomes. Isso era desejo antigo de Paulino de Mello, Nivaldo Santiago, Dirson Costa, Lúcia Frota, Joaquim Marinho, Pedro Amorim, Áureo Nonato, Elson Farias, Arthur Reis, Henoch Reis… e muitos outros idealistas, mas ainda não havia sido concretizado.

O Festival de 1998 foi no mesmo formato. Na sua apresentação escrevi: “tudo era sonho e esperança, até pouco tempo.” Amazonino, realçando o trabalho da Secretaria, escreveu: “tudo isso faz crescer o orgulho de sermos amazonenses”. Por desencontros da produção alemã que resistia ao Plano que havíamos traçado, mudamos o rumo do evento e o 3.º Festival, o agora “Amazonas de Ópera”, foi realizado com a São Paulo Imagem e Data liderada por Cleber Papa, mas ainda com produção importada, diverso do que desejávamos, pois queríamos ópera com raízes amazônicas profundas. Não nos abatíamos com críticas diárias, a descrença de alguns e a solapação de outros. Na própria equipe do governo havia quem achasse que era desproposital, mas persistimos. Havia muitas razões para persistir: boa parcela da população começava a compreender a importância do festival; os artistas se profissionalizavam; o Estado principiava a colher frutos de imagem, atividade econômica, opinião positiva de vários segmentos sociais; o governador confiava na Secretaria; iniciava-se a participação cênica de artistas e técnicos amazonenses nesse projeto ambicioso.

O 4.º Festival, em 2000, foi transformador por várias razões, mas, principalmente, porque tomamos todos os caminhos que desejávamos na formação da consciência de que ele só permaneceria se fosse fruto do trabalho de muitas mãos e competências. Este é o mistério da sua longevidade e qualidade: a construção coletiva com aplicação de competências e inteligências no palco e fora da cena, inclusive, nas atividades técnicas, administrativas e de gestão política. Sem isso teria fenecido.


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