26 de junho de 2026
A Fratura Brasileira e a Copa do Mundo

Nosso papel no mundo não é apenas viver ou vegetar, mas viver e refletir sobre o nós e o mundo no qual vivemos. Fora isso, é viver no mundo da ignorância: um mundo fácil para os que têm muito e pouco se importam com os outros; ou não conseguem perceber a beira do abismo em que estão pisando, seja por quais circunstâncias forem, tornam-se, assim, incapazes de perceber as Fraturas que estão visíveis à sua frete. Os abismos nascem com as fraturas. Esse conceito geológico, quando trazido para o social, espelha bem o acontecido, os abalos sísmicos que produzem consequências, da mesma forma que as contradições profundas numa sociedade geram fraturas que não podemos ignorar. E para tratar delas, o Professor Paulo Eduardo Arantes escreveu e reescreveu um belo ensaio intitulado A Fratura Brasileira do Mundo: visões do laboratório brasileiro da mundialização (S. Paulo: Editora 34, 2023). Nele, trata, dentre outras coisas, da “fantasia encobridora reforçada inclusive pelo viajante estrangeiro ofuscado pela exuberância nacional, como foi o caso de Stefan Zweig, autor do mais celebrado clichê dessa mitologia compensatória: Brasil, País do Futuro”( p.11). Não me sinto em condições de “virar a obra pelo avesso”, ficará para outros, com maior estofo. No entanto, em tempos de Copa do Mundo, podemos confrontar essa reflexão com a nossa participação no certame, com tantas frustrações, expectativas e alegrias. Cinco vezes Campeões do Mundo, almejamos o hexa, mas, ainda, é uma miragem. O mundo todo nos reconheceu como o “País do Futebol”. Fizemos desse esporte de operários britânicos um esporte chique nos países subdesenvolvidos. Tomado pelo capitalismo, virou o player mundial da fraternidade, até mesmo quando encobre as iniquidades do imperialismo, como estamos presenciando nas humilhações impostas às delegações de países pobres que participam, agora, do evento. Em campo, já se percebe que o Brasil serviu de modelo e todos que amam o futebol brasileiro buscaram imitá-lo, usá-lo como janela para o mundo dito “civilizado” e vistos como “superação”. E não é pouco: times de países africanos ou asiáticos, minúsculos no Mapa Mundi, agigantam-se ante seus ex-colonizadores como a Inglaterra, a Espanha, a França ou Portugal; e até do próprio Brasil, que lhes serviu de modelo. Contudo, um fato é incontestável: enquanto mercadorias que circulam no mundo globalizado do futebol, os craques, como “carne comprada” ou como filhos de imigrantes em países que não lhes suportam, mas que os nacionalizam para usufruir de seus talentos, desfilam como iguais por alguns momentos do certame.
O Brasil foi um dos primeiros a fazer, expor em glória os seus craques de futebol e a exportá-los para o mundo. Alguns astros nossos, já maduros, fundaram novas praças futebolísticas do mundo, como jogadores exemplares ou técnicos, aos moldes de Pelé, nos EUA, e Zico, no Japão. E, no afã de dominar o mundo do futebol, os grandes clubes nos viram e reconheceram como celeiro e espalharam suas Escolinhas de Futebol com o nome próprio, sucursais de talentos mirins, aptos a entrarem na engrenagem de fazer fama e dinheiro. Justo para apropriar-se precocemente dos seus talentos. Hoje, nos contentamos em conviver com nossos astros, por alguns poucos dias; cada um, jogando o que sabe como se estivesse em seu clube de origem, com pouco sentimento de pertença e com dificuldades para enquadrar-se na teoria futebolística de conjunto. Revela-se, aí, a ruptura, a tal ponto sermos obrigados a buscar um futuro que foge do nosso domínio, rompendo com o preceito de escolha entre nacionais do Técnico da Seleção, por se atribuir a eles e não aos métodos de nossa inserção no mundo esportivo a culpa pelo hexa que ainda não veio.
Futebol é Paixão, Economia, Política, Ciência e Poder de Classe. Assim sendo, a “Seleção Brasileira” é um mosaico de nossas Fraturas, expondo o fosso que separa os midas da burguesia internacional envolvida com a FIFA e o Capitalismo Financeiro (aos quais associam os “barões do desporto”) dos pobres que entregam seus filhos revelados craques nas “franjas esportivas ocidentalizadas do Brasil”, mas que só chegam ao estrelato nos grandes clubes internacionais e, para tanto, se apartam de nós. Convocados, nos colocam num eterno recomeço. Esperancemos!


