18 de junho de 2026
Parada no estaleiro

Após longo tempo sem férias, tirei dez dias. Foram dias para respirar novos ares, conhecer novas paragens, novas pessoas. Criar novas memórias. Sim, viajar é guardar na memória momentos únicos, indeléveis. Às vezes nem sempre agradáveis.
Uma viagem nunca termina. A viagem começa quando se escolhe o lugar ou lugares a visitar, os roteiros a serem percorridos. O que se deseja conhecer, que sabores queremos provar.
Depois vem a viagem propriamente dia. Fazer check-in, se acomodar em uma aeronave, afivelar o cinto, desembarcar do outro lado. E, finalmente, quando retornamos para casa e tudo se transforma em lembranças, memórias. As boas, são recordações. As ruins, aprendizado.
Durante dez dias viajei pelos EUA: primeiro Seattle, depois Orlando, meu lugar preferido no mundo, depois de São Luís do Maranhão, minha ilha do Amor.
Cruzar a soleira de casa e cair no mundo foi a maneira que encontrei para compensar os cinco anos que passei preso a leitos hospitalares ou recolhido em casa por causa do grave acidente que sofri em julho de 2003 e que mudou minha trajetória para sempre.
Como o imponderável acontece sem planejamento prévio, pois é algo que ocorre sem ser previsto, medido ou avaliado, algo novo aconteceu comigo nesta viagem.
Ainda em Seattle, no hotel onde me hospedei, ao escorar a porta do banheiro, cortei o calcanhar da perna direita. Sangue jorrou longe, que contive com a ajuda dos funcionários do hotel. Não dei a devida atenção à gravidade que o fato necessitava.
Fiz pequenos curativos durante o período que lá estive. Como todo bom andarilho, andei por todas as partes da bela Seattle. Incursionei por sítios turísticos; fiz tour caminhando, com grupo que estava hospedado no mesmo lugar que eu.
No aeroporto de Seattle, no retorno, no longo trajeto dos saguões, as dores aumentaram. Desembarquei em Orlando, onde o amigo José Leônidas esperava-me, com dores lancinantes. Passei menos de doze horas na cidade. Seu José Leônidas me deu spray que apliquei no local; alívio momentâneo.
Voo longo até Guarulhos, SP. Acomodado em assento minúsculo, as dores voltaram ainda mais forte.
Outro voo até o destino final. Em São Luís ainda fiquei três dias adiando a ida ao médico. Coisa de homem teimoso. Como as dores não diminuíam, marquei consulta com o ortopedista, já que não conseguia colocar o pé no chão. Desconfiava que tivesse fraturado algum osso.
Raio X em mãos, dr. Gregório Ribeiro, constatou pequena fissura no calcâneo. Devidamente medicado, as dores arrefeceram. Já consigo pisar sem medo. Mas não deixa de ser irônico, que a porta tenha atingido logo o calcanhar, que sustenta todo o corpo, ou seja, o responsável por me permitir caminhar por esse mundão.
Com o problema ortopédico, aumentou a quantidade de medicamentos que ingiro diariamente . Além dos remédios de uso contínuo, por causa da idade, e das comodidades adquiridas, agora são mais dois: antibiótico e anti-inflamatório.
Lembrei do meu velho e saudoso pai, Luiz Magno Gomes e Silva, que no outono da vida, repetia: “O homem está no lucro quando bebe mais cerveja que remédio”.
No estaleiro, a cada seis horas ingiro um comprimido. As cervejas estão gelando para quando puder bebê-las.
Ando pelo mundo, já pisei, com minhas inseparáveis muletas, em mais de uma centena e meia de países, em todos os continentes, e nunca tinha acontecido algo parecido. O improvável não avisa quando vai acontecer.
Como uma viagem nunca acaba, ficaram as lembranças do hotel em Seattle, a imprudência de escorar uma porta pesada com o calcanhar e, principalmente a demora em procurar o médico. “Coisas de homem teimoso”, como diria a ex.
Toda viagem começa com o primeiro passo, vamos em frente, muito a caminhar, a desbravar, a conhecer. De preferência com mais responsabilidade.
Jornalista, escritor e globetrotter


