2 de outubro de 2024
A velha e necessária polêmica sobre a revitalização da BR-319

Às vezes, é chato demais ter que bater na mesma tecla, mas a forma equivocada como certos pesquisadores abordam a situação da BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho, é um acinte ao bom senso e nos obriga a voltar ao tema.
É preciso rebater argumentações sem o menor fundamento e aqui parabenizo o sociólogo Lúcio Carril que, em dois excelentes artigos, colocou luz na polêmica.
Lamento que a pavimentação do chamado “Trecho do Meio” da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, seja frequentemente associada a um iminente desastre por parte de alguns ambientalistas que veem chifre em cabeça de cobra.
O biólogo Lucas Ferrante (Inpa), por exemplo, alerta sobre uma suposta destruição de 70% das chuvas que abastecem o Sul e Sudeste do Brasil, além de prever uma catástrofe climática em larga escala se o Trecho do Meio for pavimentado.
Entretanto, ao analisarmos de perto o estado atual da rodovia e os impactos que já ocorrem na região, fica evidente que o verdadeiro problema não é pavimentação, mas a ausência de infraestrutura e a falta de fiscalização. Esses são os maiores problemas.
Conforme enfatizado por especialistas em infraestrutura e desenvolvimento sustentável, como expus em artigo anterior aqui no Portal Único, acredito que a pavimentação da BR-319 não apenas solucionaria questões logísticas e econômicas para o Amazonas, mas também representaria uma oportunidade única de restaurar o controle ambiental em uma região atualmente devastada por atividades ilegais.
É importante destacar que a rodovia, pavimentada inicialmente em 1976, está em situação de abandono em muitos trechos, um paraíso aberto ao célere avanço de garimpeiros, madeireiros e grileiros. Esse é o nó que precisa ser desenrolado.
O Estado ausente
Ferrante, em suas próprias declarações a órgãos de imprensa, como destacou Carril, revela que o quadro de degradação já existe, como a grilagem de terras e o soterramento de igarapés.
Este cenário atual não é consequência da pavimentação, mas da ausência de governança. Sem a pavimentação e a presença do Estado, as áreas ao redor da BR-319 têm sido exploradas por criminosos que destroem a floresta sem qualquer impedimento.
Então, ao contrário do barulho absurdo que fazem alguns ambientalistas precipitados, a pavimentação permitiria maior fiscalização e combate ás atividades ilegais, contendo a destruição desenfreada que ocorre por conta da negligência do poder público.
Assim, é relevante destacar, como expôs o sociólogo Lúcio Carril, que o alarmismo em torno da pavimentação da rodovia é desonesto e sem conteúdo lógico.
Carril aponta que a estrada já existe há quase 50 anos e que a revitalização não implicaria em uma nova destruição da floresta. A pavimentação representaria uma solução prática para o isolamento logístico da região e para os problemas ambientais decorrentes da falta de controle estatal.
Desenvolvimento e proteção ambiental
A pavimentação da BR-319 ensejaria a criação de um ambiente econômico absolutamente sustentável, no qual as comunidades locais poderiam prosperar sem depender de práticas predatórias.
A presença do Estado, facilitada pela melhoria da infraestrutura, abriria caminho para o desenvolvimento de uma economia baseada na preservação da floresta em pé, gerando riqueza para a população da área sem comprometer o meio ambiente.
Isso refutaria a ideia de que o desenvolvimento e a preservação são incompatíveis.
O modelo atual de isolamento não preserva a Amazônia, como demonstrado pelo aumento do desmatamento entre 2020 e 2022, que, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), cresceu 122% no entorno da BR-319.
A pavimentação controlada, associada a um plano de desenvolvimento sustentável, permitiria uma governança efetiva e uma ocupação ordenada, minimizando os impactos ambientais negativos. É isso o que tem que ser posto à mesa do debate salutar e acrescentado ao caminho a ser percorrido.
Nova era para a Amazônia
Não tenho a menor dúvida de que a revitalização da BR-319 será a chave para reverter o cenário de degradação ambiental e abandono daquela região.
Ao proporcionar acesso controlado e presença contínua do Estado, a pavimentação ajudaria a combater melhor os crimes ambientais, promover o desenvolvimento com sustentabilidade e dar dignidade social a alguns milhares de cidadãos presentemente abandonados no entorno da rodovia.
O isolamento da região não protege a floresta, mas, pelo contrário, facilita a atuação de criminosos que exploram a ausência de fiscalização.


