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14 de junho de 2026

Alcinéa Cavalcante, Poeta

Tenório Telles

Nas décadas finais do século passado, uma nova geração de poetas ocupou a cena literária na Amazônia: autores como Age de Carvalho, Leila Jalul, Simão Pessoa e Alcinéa Cavalcante (1956) fazem parte desse grupo significativo de criadores.
Poeta e cronista identificada com um aguçado senso de pertencimento e com a memória, Alcinéa invoca na sua obra lembranças de sua infância e de sua cidade: “Vamos plantar dálias, rosas e poesia na velha praça / onde dividíamos algodão-doce no arraial do padroeiro”. Seu discurso é plasmado por um tônus lírico eivado de nostalgia [“Quero de volta / a paisagem antiga da minha rua / só pra sonhar de novo / os sonhos que sonhei na infância”] e revestido por um anseio de amorosidade: “Vem, amado meu, / enquanto existem / borboletas amarelas”.
Seu livro “Paisagem antiga”, publicado em 2012, destaca-se pela intensidade criativa e por prefigurar os temas e as linhas de força de sua poética. Os poemas e crônicas enfeixados sobressaem pelo conteúdo humano e pela poeticidade da linguagem. A leitura dessa obra desvela o olhar sensível do sujeito poético e as preocupações que o inquietam: – a inconstância das coisas: “A estrela azul, Anjo, / se apagou // Como apagaram-se os sonhos”; – a solidão: “Resta-me… um espelho / … meu rosto triste / marcado de dores / e uma saudade imensa do papai”; – os embates da vida: “clamei pelo direito de ser livre / e colhi dores e desenganos”. Esses aspectos estão imbricados com certo desassossego existencial, expresso na “dor / de não ser pássaro / para flutuar no azul”.
A produção literária de Alcinéa Cavalcante pode ser lida como um diálogo com o tempo, com as reminiscências e o cotidiano. Suas crônicas e poemas evocam vivências e pessoas – como dona Floriza (sua “casa coberta de flores”) e Otília e seu dom de curar. Sua capacidade de transfigurar criativamente o mundo surpreende pela força imagética de seu verbo: “o sol, bochechudão como ele só,… lentamente vai subindo dourando o rio, dourando os barcos, dourando nossa alma”.

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