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 O caso Eneida

Por: Robério Braga

Membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), advogado e ex-secretário de Cultura do Amazonas

Um tal de Gayoso

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Por Robério Braga

Andou por Manaus nos tempos áureos em que se derramavam libras esterlinas para tudo e por todo o canto, segundo consta no imaginário popular, refastelado no poder político e à custa do prestígio de terceiros, inicialmente do tenente Fileto Pires Ferreira, um senhor metido a elegante que atendia pelo nome de José Gayoso o qual, por longo período, andou de cargo em cargo sempre os de maior relevância no serviço público da época, demonstrando competência (falsa), grande opulência e certa truculência.

Ele foi chefe de Polícia, diretor do Diário Oficial do Estado, diretor da Biblioteca Pública, diretor da Instrução Pública, administrador do Correio, diretor do Teatro Amazonas – neste caso, de forma cumulativa com a função de chefe de Polícia -, oficial de gabinete e secretário de governo estadual, cargos exercidos nas Administrações de Fileto Pires Ferreira (1896-1898), Silvério José Nery (1900-1903), Constantino Nery (1903-1906) e na interinidade de Raimundo Afonso de Carvalho (1907). Com todas estas habilidades, como não poderia deixar de ser, tornou-se diretor do jornal vinculado aos interesses dos políticos que o adotaram como coringa: os Nery e Afonso de Carvalho.

Noticiários da imprensa de oposição jamais pouparam agressões verbais ao indigitado “diretor de tantas diretorias” que, segundo diziam, sem a competência para qualquer delas, as exercera por apenas curvar-se ao poderoso amigo que o teleguiava na imprensa política e partidária, assim como nos “casos de governo”, conforme seus interesses momentâneos. Entre uma viagem e outra que costumava fazer com frequência para o Sul e o Nordeste do País, era levado em procissão por grupo de adeptos do seu partido até o cais do porto, não raro com despedidas emocionadas e festivas.

Tido como espião do governador, era chamado de “chaleira”, o mesmo que certa feita foi flagrado atirando para o alto no quintal de sua casa de modo a assustar os vizinhos e saiu dos cargos públicos em 1909, na limpa que Antônio Bittencourt procedeu contra os amigos de Silvério Nery e Afonso de Carvalho e, por isso, foi abandonado pelos próceres do Partido Republicano Federal que o sustentavam no poder e nas estripulias.

Foi abandonado pelo “líder” e, portanto, por todos que o cercavam tecendo loas e cantando vivas a cada coisinha indiferente que dizia, como era comum na corte palaciana da praça dom Pedro II onde se instalara o governo e para a qual acorriam os poderosos para incensar o chefão e os humildes e miseráveis para pedir pão.

Um certo dia, lá pelos idos de 1909, ele precisou sair – quase às pressas – da cidade de Manaus, afastado de todos os cargos e encargos que pensava serem de sua propriedade e, contrário à tradição da época, nenhum dos antigos correligionários compareceu ao seu bota-fora no porto flutuante dos ingleses, ao cair daquela tarde nefasta para a sua memória.


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