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Vão deixar o David Almeida fazer barba, cabelo e bigode?

Por: Carlos Santiago

Sociólogo, Analista Político, Advogado e Membro da Academia de Letras e Culturas da Amazônia – Alcama.

Tristeza

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A tristeza é a emoção mais comum da vida humana, mas é tratada como algo terrível que deve ser evitada, negada e abolida, como se a tristeza não fosse, também, responsável por ideias inovadoras e por descobertas que mudaram o mundo.

A tristeza não é desejável e nem um projeto de vida. Nunca ouvi alguém dizer “eu quero tristeza”. Mas ela existiu, existe e sempre existirá enquanto parte da própria existência humana, como a dor, a alegria, a decepção e os sofrimentos, independentemente da condição financeira, da cor, do credo e do gênero.

Sobre a democratização da tristeza, o genial escritor Jorge Amado (1912-2001) na obra O País do Carnaval (1931) narra um diálogo entre dois personagens em estado de tristeza. Um homem rico, viajado e estudado que lamentava a perda da mulher amada; e um outro, uma mendiga com fome e sem instrução que lamentava a falta de dinheiro para comprar comida.

A tristeza pode ser a inspiração para coisas boas e alegres. O poeta Vinícius de Moraes (1913-1980) diz na música Samba de Benção que “pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza. É preciso um bocado de tristeza. Senão, não se faz um samba não”.

Um dos grandes músicos da história do Brasil, Tom Jobim (1927-1994), na imortal canção Garota de Ipanema, um símbolo da Bossa Nova, fala da condição de tristeza para perceber o belo: “Ah, por que estou tão sozinho. Ah, por que tudo é tão triste. Ah, a beleza que existe. A beleza não é só minha. Que também passa sozinha”.

E a tristeza pode ser usada para denunciar a própria tristeza política imposta por ditadores, como no canto de Chico Buarque na música Apesar de Você: ” Você que inventou a tristeza. Ora, tenha a fineza de desinventar. Você vai pagar e é dobrado cada lágrima rolada nesse meu penar. Apesar de você amanhã há de ser outro dia”.

Foi numa conversa franca e triste entre o filósofo Sócrates (469 – 399 a.C.) e o seu amigo Críton, dentro de uma prisão, diálogo descrito por Platão (427-347a.C), às vésperas da execução de Sócrates, que ficou o legado para a filosofia jurídica ocidental do respeito à lei e à justiça, mesmo que em algum momento, elas sejam injustas ou alguém possa discordar delas.

Até o sisudo filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900) que “martelou” toda cultura Judaico-Cristã e a filosofia ética do mundo moderno, mostrou toda a sua tristeza e sensibilidade ao ver um cavalo sendo maltratado. Agarrou-se ao animal, chorou e desmaiou, começando, ali, a mais profunda tristeza de toda sua vida.

Nem o Deus bíblico, o que fez o homem à sua semelhança, escapou da tristeza, pois não dá para imaginar o “criador de tudo” com alegria expulsando o Adão e a Eva do seu Paraíso.

Então, a tristeza pode ser um mal ou um bem. É tão próprio da existência humana, que nem Deus (criador do homem) dela escapou. Mas pode contribuir para o autoconhecimento humano, o olhar e refletir sobre si mesmo para entender melhor o mundo ou a sua condição na vida, na cultura e na história. Vai depender de como a tristeza será traduzida.


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