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A alegria em ser membro da AVL

Por: Luiz Thadeu Nunes de Silva

Engenheiro agrônomo e viajante do mundo

Tempos estranhos, pessoas ausentes.

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Por causa de um mal estar causado por uma dessas viroses que nos assolam, fui parar na emergência de um hospital. Creio que metade da cidade também estava lá lá, com os mesmos sintomas que eu, tamanho a quantidade de gente. Peguei a ficha preferencial, na entrada, aguardei a vez de ser chamado. “Sr. Luiz Thadeu”, me encaminhei ao balcão de atendimento. Ficha feita, voltei para o assento, esperando a vez da consulta. O frenesi de pessoas se intensificava com o passar das horas. Mulheres, homens, jovens, velhos, crianças; eu a observá-los.
Uma mãe, jovem, roupa de academia, com um filho de uns onze a doze anos, se dirigiram ao balcão. O enfermo era o filho, mas todas as perguntas foram respondidas pela mãe. O garoto com fone de ouvido, absorto, não olhava para frente, nem para os lados, olhos fixos na tela do smartphone de última geração, desses que tem a marca da fruta que Eva ofereceu à Adão, expulsando-os do paraíso.
Não lembro de nem um dos dois terem dado “bom dia” para a atendente. Respondidas as perguntas, olharam em seu entorno. Como não havia lugar para sentar, se encaminharam para um canto do amplo salão. Não trocaram uma palavra. A mãe com celular na mão, o filho idem. Cada um hipnotizado pela tela do celular.
Tempos estranhos, em que pais criam filhos que dormem na cama deles até quando querem. Largam mamadeira e chupeta quando querem. Só comem o que querem. Crianças que não podem ouvir um “Não”. Não podem ser contrariados, para não se frustarem.
Filhos antissociais aos 11 anos. Que não dão um “bom dia”, nem “obrigado” ou “com licença”. Mas têm o melhor e mais caro celular a cada Natal. Surdos com seus fones de ouvido. Alheios ao seu entorno. Centenas de amigos virtuais, sem interagir com quem está próximo.
Pais sempre corridos, sem tempo para acompanhar a vida de seus filhos. Pais sem tempo de brincar; delegaram ao celular a missão de entreter crianças.
Tempos estranhos, em que pais não precisam buscar os filhos na festa; o Uber faz isso. Os pais não precisam cozinhar; o Ifood faz isso. Os pais não precisam nem educar. Empurraram isso para escola. Ler para o filho? Cantar musica e fazer cafuné? Luxo para poucos. São pais que estão desconectados da realidade. Pais que necessitam de ajuda, mas só aceitam quando a bomba explode. Como agora, nesta onda de violência nas escolas. Pais ausentes, que não abrem a mochila dos filhos, muito menos suas redes sociais.
Pais e filhos sob o mesmo teto, mas diálogo zero. Perderam o hábito de assistir um filme juntos. Mas adicionaram o hábito da selfie, mostrando alegria de uma família pseudamente perfeita. Afinal, o que importa é mostrar que são felizes. Importante é ter mil curtidas. Tempos de redes sociais. Tudo tem que ser mostrado, todos sorridentes, falsamente felizes. O que importa não é ser, mas parecer ser. Não estar nas redes sociais deixou de ser uma opção para ser um fator de exclusão.
E, quando essa geração crescer, o que quer ser? Youtuber, Blogueiro, Vlogueira. Digital influencer. Estudar? Pra quê? Acham que estão em um mundo que já está pronto, portanto, vieram para usufruir, para “curtir”. Responsabilidade zero.
Uma geração de imediatistas. Tudo aqui e agora. Não têm tempo a perder. Não por acaso, estamos acompanhando um número crescente de ansiosos e deprimidos. A maioria a base de drogas, lícitas e ilícitas. A indústria farmacêutica e os traficantes agradecem.


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