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Os jornais da revolução

Por: Robério Braga

Membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), advogado e ex-secretário de Cultura do Amazonas

Saraus em Manaus

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Nossa Manaus já foi a cidade de muitos e animados saraus, fossem eles literários, musicais ou litero-musicais, notadamente em anos bem passados, e, mais recentemente, pelo final da década de 1970, seja em casas de famílias seja em pontos de prazer coletivo como as praças que adornavam a cidade, quando alguns jovens escritores, músicos, seresteiros e poetas costumavam se reunir para experiências que invadiam a noite e, quando em vez, chegavam à madrugada.

Em certa fase da vida estive em meio a alguns desses apaixonados cultores do belo. Em uma dessas reuniões cogitou-se formar um novo Clube da Madrugada, cópia muito mais da associação que se organizara em Brasília sob a liderança de Miguel Cruz e Silva do que do modelo manauense que ocupou a Praça de Heliodoro Balbi por longo tempo. Seria o “madrugadinha”, que ameaça nascer depois de conversas carregadas de ufanismo sobre as produções que cada um de nós carregava consigo, imaginando ser, por si e àquela altura dos cabelos revoltos e longos ou de ralos cabelos grisalhos, cada um imaginava que as modestas produções, o conhecimento musical e literário ou a paixão instrumental que movia alguns dos participantes desses saraus seria suficiente para credenciar a fundação de um movimento desse tipo, de maneira institucional.

Ainda bem que não fizemos esta asneira. Optamos pela diversão, pura e simples, ao som de belas vozes e um violão sempre bem afinado como aquele que o João carregava consigo para acompanhar o Hiram Caminha, figura excepcional de seresteiro de boa cepa.

Algumas dessas boas reuniões deram-se em casa de João e Ana Rita Antony Cruz e Silva, residência fixada no Boulevard Amazonas, atual Boulevard Álvaro Maia, com recepção elegante e acolhimento afetuoso e divertido do casal sempre disposto a receber bem os amigos. Foram noites inesquecíveis, agradáveis sobre todos os pontos de vista.

 Outro ponto em que estivemos reunidos foi o “Alvoradinha”, no Parque Aquático do Atlético Rio Negro Clube no qual deram-se declamações, pequenas leituras dramáticas e muita, mas muita música, não raro, para alguns dos convivas, regada a boa cerveja ou ao “scotch” de primeira, servido com ou em gelo, houvesse ou não houvesse lua alta e bela.

Não fui dos que primaram pela bebida alcoólica, nem mesmo na juventude mais tenra, é verdade, mas experimentava aquela convivência fraterna e amiga como um aprendiz, atento a tudo e a todos e apreciando os comentários sobre ritmos, artistas e a discografia de cada um. Em outro grupo, mais jovem, dava-me ao prazer de declamar como fizera quando menino pequeno no palco do Teatro Amazonas, nas festas escolares, nas olimpíadas do Instituto de Educação e nos encontros de família.

E foi desde este tempo que gravei comigo algumas apreciações dos mais antigos sobre a liberdade de expressão e a liberdade de criação artística em um estado democrático de direito, em uma sociedade regida por uma Constituição que a todos obriga e protege, ampara e defende, mas que, igualmente, impõe regras e limites.

 É que, também naquele tempo como antes e ainda agora, há quem decida enfrentar os limites da lei, da ordem social e da ética como se fosse um ser especial ou único, capa de desrespeitar o outro, ultrapassar a cerca da vergonha como se dizia nos jornais de antanho quando de alguns casos remanchados de desrespeito às leis.

 Além dos limites impostos pelas leis e pelas regras comuns de convivência social, fruto da construção civilizatória, havia, como deve haver, totens intocáveis e sagrados como são e devem ser sempre os símbolos nacionais, emblemas da brasilidade construída ao longo e ao passar de muitas gerações, em relação aos quais deve-se observar os limites da legislação e observar constante respeito.


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