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 O caso Eneida

Por: Robério Braga

Membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), advogado e ex-secretário de Cultura do Amazonas

Revendo o tempo

TEmpo

Enquanto esperamos o Novo Ano que vai raiar entre comemorações para muitas pessoas e em amarga dor, tristeza e sofrimento para a maioria da população, parece propício revermos o cenário que Manaus experimentava no primeiro dia de 1924, ano de graves mudanças políticas e sociais para a sociedade, portanto, cem anos passados.

A quebra da economia pela derrubada das exportações de borracha agravada desde 1913 ainda repercutia naquele janeiro, como se pode ver dos leilões de “móveis de família ao correr do martelo” avisados em diversos jornais, notadamente os presididos por Silvestre Silva. Eram peças de gente abastada, mobiliário importado e coisas de classe, além de leilões de edificações e casas de residência como “o magnífico prédio em forma de “chalet”, denominado de Vila Cavalcante.

A Cervejaria Miranda Corrêa anunciava aumento do preço da cerveja, medida adotada também pelos hotéis, restaurantes e pensões para todos os serviços, e até a venda avulsa de jornais passou para 200 réis, porém o assunto mais comentado nos cafés e bares da cidade era a nova Lei de Imprensa.

O retrospecto de 1923 era trágico: “ano fatal de câmbio a cinco! um defunto foi vice-presidente da República (Urbano Santos). A terra tremeu no Japão, ano de abalo nos créditos, de estado de sítio, de sangue nos pampas, de ódio bernardista” – presidente Arhur Bernardes. O que chegava era bissexto (1924) e sobre ele não havia muitas expectativas.

Naquele primeiro dia do ano novo a família Rego Monteiro, desde o governador César Augusto, ao filho Claudio, ao filho Edgard, ao filho Mário e ao genro Turiano – que ocupavam os principais cargos do governo e da política no Estado – ainda eram por demais elogiados publicamente pelo “Jornal do Commercio” e a “Gazeta”.

A maior diversão era o cinema. O Polytheama com “O grito da sombra”, “O caixa” e “Os três mosqueteiros”. No cine Odeon passava “Algemas de ouro” e “Um concerto de Geff”, ao tempo em que várias pessoas se deliciavam com a retreta na praça do general Osório e no Teatro Amazonas as senhorinhas e crianças apresentavam “O Natal de Jesus”.

Para policiar a cidade na ronda noturna bastavam os guardas civis – os de números dois, vinte e dois, trinta e quatro e trinta e nove -, reconhecidos pelos moradores. No porto, com movimento reduzido, aportavam os navios do Lloyde Brasileiro, Amazon River, Booth Line, Companhia Fluvial e B. Levy, para viagens regionais e para o exterior.

Um bem composto artigo de Agnello Bittencourt ocupou parte da primeira página do jornal de 1.º de janeiro de 1924 com retrospectiva do ano de 1923 o qual, após tratar do cenário mundial e brevemente sobre o Brasil, ele fez comentário curto sobre o Amazonas para assinalar que o comércio começava “a preparar o futuro de sua redenção econômica”. Ledo engano do velho mestre, porque a crise se acentuou, alcançou a política, abalou o funcionalismo de forma grave e redundou na revolução que alçou Alfredo Ribeiro Júnior ao governo, em 23 de julho daquele ano.

No nosso tempo, o que dizer do ano que se encerra depois de grave onda de calor e fumaça pela destruição de floresta, da seca dos rios como jamais foi vista, da queda da economia de produção industrial, e, mais ainda, da insegurança gerada e agora amenizada com a reforma tributária que poderia esmagar a Zona Franca? Passou e sobrevivemos.

O que dizer e o que esperar daquele que vai nascer em poucas horas, ano de eleições municipais, de embates e de possível redesenho das forças político-partidárias, de novas apreensões sociais e econômicas, mas, o que aspiramos, é que seja de esperanças renovadas, que a paz se faça presente entre os povos e haja harmonia em família.


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