Reserva do Mamirauá: o exemplo ambiental que vem de casa

O modelo concilia preservação da natureza, presença humana e tecnologia

É a primeira do planeta a ser monitorada inteiramente em tempo real

Solange Elias
Para o Portal ÚNICO

No Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado neste domingo (5), enquanto os olhos de todo o mundo se voltam para a Amazônia como um imenso patrimônio natural que precisa ser preservado, um projeto de sucesso desenvolvido no Brasil, na bacia do médio Solimões, no meio da floresta amazônica, serve de exemplo sobre a conciliação entre preservação ambiental, desenvolvimento humano e aplicação de tecnologia de ponta.
É a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Mamirauá (RDS), cuja área abrange cinco municípios do Amazonas, com maior incidência sobre Fonte Boa (52,36% do território) e Maraã (26,97%) e pequenos trechos em Uarini (18,28%), Japurá (1,4%) e Tonantins (0,99%).
Nessa RDS uma parceria com a Universidade Politécnica da Catalunha, na Espanha, a transformou na primeira reserva do planeta a ser monitorada inteiramente em tempo real. Hoje, Mamirauá tem 22 módulos do Projeto Providence, cuja tecnologia inclui técnicas avançadas de inteligência artificial aplicadas a análises de som e imagem, que estão continuamente identificando e rastreando a biodiversidade da floresta amazônica no 1,12 milhão de hectares de floresta protegida de Mamirauá.
Curiosamente, a RDS Mamirauá não é vinculada ao Ministério do Meio Ambiente, mas é conveniada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e gerenciada pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Amazonas.

Equipamentos instalados vasculham também a fauna dos rios, na reserva de desenvolvimento sustentável

Os cientistas que operam na reserva já haviam descartado satélites de sensoriamento remoto e aeronaves, porque só “vigiavam” sobre a copa das árvores e também saíram dos planos os métodos de monitoramento da biodiversidade “no chão” já conhecidos porque são muito caros e de colocação praticamente inviável pelo tamanho da área. A solução surgiu dentro da reserva, com os espanhois. O Projeto Providence desenvolveu e implantou uma tecnologia única que integra, pela primeira vez, o reconhecimento de espécies através de técnicas de áudio e imagem em um único módulo de hardware. Essa técnica fornece informações sobre a “saúde” da floresta tropical, através do cálculo dos índices ecoacústicos (barulhos) da biodiversidade.
Segundo os pesquisadores, o impacto dessa tecnologia vai permitir que gestores, ONGs (organizações não governamentais), governos e o público em geral entendam, monitorem e prevejam o impacto das mudanças na cobertura florestal e na integridade da biodiversidade na Amazônia numa escala nunca antes pesquisada.

Histórico

Mas nem sempre foi assim em Mamirauá. Sonhada pelo biólogo e primatologista
José Márcio Ayres e pela antropóloga Deborah Lima nos anos 1980, a área só ganhou formato em 1990, quando o então governador Vivaldo Frota criou a Estação Ecológica do Mamirauá. Naquela época, as comunidades ribeirinhas estavam se articulando para proteger os recursos naturais contra ações predatórias de peixeiros e madeireiros dos centros urbanos. Na área, havia pesca e caça predatórias e exploração ilegal de madeira. Muitas espécies estavam ameaçadas, como: o macaco uacari-branco (objeto de estudo do biólogo Márcio Ayres), peixes-boi, tartarugas, pirarucus e espécies madeireiras de valor comercial.
Finalmente, em 1996 foi transformada em Unidade de Conservação (UC) e, como esse tipo de reserva não previa a presença humana no território, foi necessária a divisão, em 2000, em dois tipos: as Reservas de Proteção Integral, que hoje conhecemos como parques e flonas, e as Reserva de Desenvolvimento Sustentável, que integraram os povos tradicionais em sua existência e foi então que Mamirauá se tornou pioneira como a primeira RDS do Brasil. Hoje, as comunidades indígenas e ribeirinhas participam de todas as decisões de manejo, conciliando a conservação da natureza com a presença humana.

O manejo do pirarucu pelas comunidades tradicionais é o produto mais conhecido e já começa a ganhar mercado nacional

Para se ter uma ideia dos resultados da RDS Mamirauá, em abril deste ano o relatório anual apontava que, no ano passado, o um faturamento bruto total maior que R$ 3,5 milhões, envolvendo a pesca do gigante amazônico pirarucu (Arapaima gigas), tambaqui e outras espécies. O faturamento líquido ficou em torno de R$ 3 milhões. Ao todo, são mais de mil pessoas beneficiadas com a pesca na região.
Somente de pirarucu, foram vendidos quase 9 mil peixes em um ano.
A maior parte da produção do pescado (86,4%) foi comercializada em Manaus, Manacapuru e Parintins, mas também houve vendas para Santarém (PA), Itapoã e Oeste (RO).

Vacinação ajudou

A coordenadora do Programa de manejo de pesca, Ana Claudia Torres atribuiu o resultado de 2021 à retomada da agenda com as comunidades, especialmente com o avanço da vacinação contra a Covid-19. Ela conta que o resultado só não foi melhor, porque aconteceu o surto da “doença da urina preta” que retraiu o consumidor. “Ainda que a pandemia tenha continuado em 2021 ela não teve o mesmo impacto que teve em 2020, por conta do avanço da vacinação”, confirmou.

Pousada flutuante Uacari já ganhou prêmios internacionais e leva os visitantes para conhecer a realidade dos povos tradicionais da amazônia

No lago formado pelo braço do rio Japurá, afluente do Solimões, uma plataforma flutuante se destaca entre o verde da floresta amazônica e o castanho-escuro da água: é a Pousada Uacari, no coração da RDS Mamirauá. A estrutura ecologicamente planejada tem capacidade para receber até 24 hóspedes simultaneamente. Uma média de 700 turistas visita o local por ano, dos quais cerca de 70% estrangeiros.
A pousada foi uma alternativa para aumentar o desenvolvimento econômico local e deu muito certo. Hoje, 11 comunidades do entorno, incluindo uma indígena, trabalham em função do turismo, mobilizando 800 integrantes.
Para chegar lá, é possível sair de Manaus numa viagem de dois dias num barco regional; 12 horas pelo rio numa lancha; ou de avião até Tefé e depois uma hora de barco.
O turista pode se hospedar num dos dez bangalôs flutuantes, de madeira e com aquecimento e ventiladores alimentados por placas de energia solar. As estruturas têm sistemas próprios de tratamento de esgoto. Dali, os visitantes podem sair de canoa a remo para observar a fauna e a flora, caminhar pela floresta, interagir com as comunidades locais e aprender mais sobre a biodiversidade da Amazônia.

Com informações do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá


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