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 O caso Eneida

Por: Robério Braga

Membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), advogado e ex-secretário de Cultura do Amazonas

Relendo uma carta

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Abri as gavetas nas quais Rosa e eu – a minha amada esposa Rosa que acalanta meu coração – guardamos com muito zelo e carinho algumas relíquias de família. Há tempos não sentia coragem de abri-las e fazer novas leituras das cartas que você, meu Pai, enviou aos filhos. Verdade que minha amada mãe e mestra Sebastiana recebeu e guardou muitas dessas missivas que escrevias com frequência em razão de suas viagens ao interior em busca do nosso sustento. Desde menino pequeno eu ouvia falar da beleza das palavras lançadas em papel fino, pautado, caligrafia desenhada e elegante, correção segura no uso do idioma, com gentilezas carinhosas de amor por sua Sabá e recheadas de bençãos aos filhos, alguns deles em idade de preocupação.

  A que escolhi para nova leitura no dia de hoje, às vésperas da data consagrada aos pais foi aquela com a qual se apresentou na sala de nossas orações no dia de seu aniversário (25 de setembro de 1993), depois de sete anos da sua transferência para o plano espiritual. Hoje, como naquela noite, não contive as lágrimas, não consegui evitar a forte palpitação do coração sempre apaixonado e saudoso de você.

Lembro de tudo como se deu. Nada esmaeceu na minha memória, mesmo passados esses muitos anos. O que mais lembro – e adoro lembrar – é da sua exclamação: “Sabá, chegou o rouxinol”, proclamada com afeto na voz todas as vezes que eu adentrava em nossa casa com assovio alto capaz de chamar a atenção da vizinhança. Era a forma de pedir sua benção, de dizer do meu amor, de lhe abraçar e me aconchegar no seu colo. Era a maneira de pedir desculpas pelas falhas cometidas, de clamar socorro para enfrentar as angústias que me abalavam, de soluçar minhas dores, de transparecer minhas alegrias, de me declarar seu filho sabidamente muito amado, de dizer ao mundo e a todos os mundos que o amo, e de traduzir minha gratidão. Seu olhar, sua benção, seu sorriso eram a resposta a tudo que me faltava. Bastavam! Respirarmos o mesmo ar e estarmos ali, um diante do outro, era a energia de que precisava para viver e vencer.

Olhos encharcados, volto no tempo que não sai de mim e vejo a sua bela figura humana postada diante de nós, até com aquele suéter que guardamos como relíquia. O que mais me enternece no tempo de agora em que me tornei pai antigo e avô moderno é voltar a saber que a sua travessia foi mansa e lisa, que logo se deparou com estrelas e o verde das florestas, que não se deixou abater e sempre foi amparado por uma voz carinhosa que, à distância, o chamava de pai, e que amigos – muitos amigos e membros da nossa família espiritual – lhe estendiam a mão e não lhe deixavam olhar para traz, carinhosa e fraternalmente o conduziam para a frente e para o alto, ainda que você não os conseguisse ver, mas sentia que estavam amparando o seu caminhar.

  Saber que lhe foi permitido, desde cedo depois da travessia, “sentar à sombra das árvores frondosas e sentir a beleza e ouvir os pássaros e refletir, refletir, refletir e refletir…”, como declarou por meio do nosso João que lhe emprestou a voz para aquela comunicação, desde então acalma meu coração, e reler essa declaração proferida com a mansidão que lhe era peculiar nos serve de lição nos dias de agora a representar que é preciso evoluir e dar ao espírito a oportunidade de aprimoramento, em esforço continuado que atravessa os planos em que possamos nos encontrar.

Guardo todas as lembranças de sua existência física ao nosso lado, a sua benção, seus discursos em todas as festas, a elegância no terno branco, alegrias com nossas vitórias, o caminhar manso e seguro, a palavra amiga, a permanente demonstração de amor por nossa mãe, e agora que de forma atrevida me arvorei a contar um pouco de sua luta política por uma sociedade melhor em livro que está em preparo, espero não cometer muitos pecados na reconstituição dessa história. Mas o faço com emoção ao proclamar seu nome – Lourenço da Silva Braga – meu pai e amigo, meu guia e sinaleiro de luz, repetindo a mensagem que ditaram para você nos transmitir naquela noite de esplendor de sua visita a nossas preces familiares: “Deus de todos os mundos e de todas as criaturas, desarma os espíritos, purifica os corações, quebra o orgulho, introduz o amor e faz de cada ser humano o mensageiro da Tua palavra.”.

Rogo sua benção iluminada com a paz de Jesus, a luz das estrelas e o canto dos pássaros.  


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