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 O caso Eneida

Por: Robério Braga

Membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), advogado e ex-secretário de Cultura do Amazonas

Relendo Júlio Dantas

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Robério Braga

Havia muito, muito tempo mesmo, que não me reencontrava com Júlio Dantas, notável escritor, cujas leituras durante vários anos animaram meus fins de tarde quando a fase juvenil da vida ainda me permitia esses devaneios nestas horas vesperais. Há pouco, para raros dias de descanso, levei comigo o seu livro “Discursos”, lançado pela editora Bertrand e no qual foram reunidos seus pronunciamentos em solenidades acadêmicas, comemorações, atos diplomáticos e conferências internacionais, e me dei muito bem retemperando o espírito.

Falando de Bulhão Pato, quando de sua investidura acadêmica, Dantas cuidou de explicar o que acontecera com seu antecessor apartado de há muito do convívio social, e o fez de forma contundente ao encontro da verdade que todos nós, em certa idade começamos a perceber com alguma clareza – “Não é apenas transformando-nos que o tempo nos envelhece: é transformando, incessantemente, tudo o que nos rodeia”, com o que estou de pleno acordo, e constato principalmente quando rememoro neste canto de página – que muito me honra ocupar há dezenas de anos – fazendo ressurgir o passado de nossa terra.

No mesmo sentido ensina o mestre da poesia, prosa e dramaturgia portuguesa que “a mais dolorosa impressão da velhice não vem da senilidade; vem do isolamento. Desmorona-se à nossa volta tudo quanto nos era familiar; desaparecem, uma a uma, todas as imagens queridas; caem, como folhas secas de outono, todas as afeições, sorriso a sorriso, coração a coração; e quando um dia, na obstinação de viver, olhamos em torno de nós, – como tudo está mudado, como nós desconhecemos tudo, como tudo nos desconhece a nós, e como essa humanidade nova, em que já não se criam afetos, cheia de estranheza e de hostilidade, nos cava fundo na alma a impressão viva do abandono, a mais desoladora, a mais pungente, a mais dolorosa de toda a velhice humana”.

Andou certo, e bem certo, o meu caro Júlio Dantas – sim, caro para mim porque por tantas horas me debrucei sobre vários de seus livros lendo a todos com a maior atenção, ainda que tenha sido atenção juvenil é verdade -, posto que isso vejo passar-se com pessoas das minhas relações mais próximas, comigo mesmo em certa medida e com aqueles com os quais tanto aprendi.

Agora em fins do ano passado, faz pouco, portanto, acompanhei o quase isolamento da professora Maria de Nazaré Nogueira Xavier no alto de seus mais de 90 anos, residindo no Rio Janeiro, aquando da luta pela superação de problemas de saúde comuns à idade avançada que ostenta. Ela que foi dedicada mestra das Ciências Físicas e Biológicas, diretora do Instituto de Educação do Amazonas, dinâmica colaboradora da Arquidiocese de Manaus e da Catedral de Nossa Senhora da Conceição, a quem me afeiçoei desde quando ainda quase menino cheguei para as aulas no IEA. Recuperada, com a presença carinhosa de sua filha muito amada, fiz chegar até minha mestra, de viva voz, uma mensagem de carinho para quebrar a solidão e a distância que nos separa.

O que mais nos ensina o poeta festejado e dramaturgo de sucesso pouco mais adiante ao homenagear Horácio – esse monumental gênio – ao traçar o perfil que recomenda seja meta objetiva e clara em nossa vida –, sugeriu que se deve ser romano pela estrutura filosófica e moral da obra, grego pela elegância, pela harmonia, pela concisão, pelo equilíbrio, pelo bom gosto, pela sábia utilização das formas e dos ritmos do lirismo, mas principalmente cultuarmos o humanismo.

E é de humanismo – o culto do humanismo – que a sociedade atual mais se ressente e o que ouso sugerir aos meus leitores. Mais uma vez devo confessar o acerto de meu preclaro Júlio Dantas.


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