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Dia Mundial do Meio Ambiente

Por: Luís Lemos

Professor, filósofo e escritor, autor, entre outras obras de: Filhos da quarentena - A esperança de viver novamente. Editora Viseu: Maringá-PR, 2021

Queixumes de minha alma

Naquele dia, quando o professor Caraíba chegou a sua casa, já era tarde da noite. Depois de tomar um banho fresco, fazia muito calor em Manaus naquela época do ano, ele pegou-se a refletir:

“Vivemos momentos de crise em diversos aspectos, principalmente no aspecto pessoal. A vida humana anda num estado deplorável de falta de humanidade. As pessoas não se amam mais, não se valorizam e nem se respeitam. Por que eu vivo nesta época? Por que as coisas andam tão complicadas? Que tempos são estes? Particularmente, eu vejo todo mundo construindo família, por que eu não tenho uma? Por que eu não tenho esposa e nem filhos? Por que eu vivo tão sozinho? Vejo tanta gente feliz, por que eu não sou feliz? Por que a minha alma sofre tanto? Será que eu sou um ingrato? Será que eu não sei reconhecer o quanto à vida tem sido boa comigo? Será ingratidão de minha parte? O que torna uma pessoa feliz? É o trabalho? É o status social? É fazer o que gosta? É o dinheiro? A religião? São os amigos? A família? A saúde? A fé? Eu tenho uma poção dessas coisas e não sou feliz! Conheço tantos agricultores, pescadores, vendedores ambulantes, construtores de artefatos, motoristas de aplicativos, pessoas simples, que são felizes, sem tantos queixumes como eu. Por que será que eu não vivo contente com o que tenho? Com o que sou? Com o que faço? Afinal, sou um professor e aparentemente nos olhos dos outros sou bem sucedido, realizado e feliz. Mais à realidade é outra! Quando eu estou no meio da multidão, na escola, na sala de aula, no cinema, no ónibus, na igreja, eu não me reconheço como sou: uma pessoa solitária e faminta de conhecimento; eu sou um devorador de livros. Mas a minha alma não para de queixar-se! Por que eu sou tão sozinho? Por que ninguém gosta de mim? Será que eu sou a solidão em pessoa? A personificação da noite fria? Da insónia? Vejo tanta gente viajando, por que eu não viajo? Por que eu não consigo sair dessa cidade? O que me prende aqui? É a culinária? O calor? O banho de rio? O trabalho? O que será meu Deus! Por que a minha alma sofre tanto? Existe remédio para as dores existenciais? Qual é? Alguém me indica um? Por que a minha alma é tão inquieta? Por que nada me satisfaz? Eu sou um ser humano ou ser que pensa? Um ser inquieto, ateu ou revoltado? O que me define? Quem sou eu? Como ser uma pessoa calma e prudente? Como ser uma pessoa realizada e feliz? Que inveja eu tenho das pessoas felizes! Como ser feliz? O que torna uma pessoa feliz? Ganhar dinheiro? Não? O que é preciso, então, para ser feliz? Amar? O amor torna a pessoa feliz? Acho que vou trocar de profissão! Acho que vou ser um cantor de rock. Ah, lembrei aqui que não tenho mais idade para ser um cantor de rock. Existe uma idade certa para ser cantor de rock?”.

O professor Caraíba abriu os olhos gastos pela idade e passando a sua vida a limpo, levantou as mãos para o céu e começou a gritar, como se alguém fosse ouvi-lo ou viesse ao seu socorro:
“Quero um amor que dignifique à minha alma, que me torne feliz e me ajude no sustento do corpo e da alma. Que eu pare de viver de bar em bar, nas praças, compondo e vendendo livros de uma poesia barata”.


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