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“Cavalo não desce escada”

Por: Walmir de Albuquerque Barbosa

Professor Emérito da UFAM; Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo(USP); Graduado em Jornalismo pela UFAM.

Prometi a todos, todas e todes que não falaria sobre isto

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Mas, fui instigado a dizer o que penso sobre algo que nenhum de nós, em sã consciência, deve ter posição definitiva. E, se tiver, gostaria de pedir um momento de atenção aos argumentos que me proponho a expor. A possível divergência comigo, se houver, pode ser perfeitamente salutar e até esperada, pois vivemos um mundo de incertezas. Embora os fatos borbulhem diariamente, evitamos  a discussão sobre o assunto. Uns ouvem, fazem um comentário a seu modo e saem pela tangente,  evitando discussões calorosas. Outros, fazem muxoxo, dão as costas e vão embora.

Circula na internet um vídeo lacrador do MBL (Movimento Brasil Livre), que deseja expor ao ridículo o uso do pronome “todes” como vocábulo da língua portuguesa nas saudações, quando das cerimônias oficiais ou não, no Brasil. Esquecem os lacradores, ao afirmar que “todes” não existe porque a regra gramatical da língua portuguesa só consagra dois gêneros e o gênero neutro, existente na língua latina, foi incorporado ao gênero masculino. Verdade parcial! Tal afirmação peremptória só reforça o machismo. Nas regras da língua latina, o gênero está associado à seres animados e inanimados e não ao sexo das pessoas. A extrema direita, obcecada pela sexualidade alheia, tenta incluir o termo no seu pacote de vigilância dos costumes, rotulando-o como parte pecaminosa da “ideologia de gênero”. O outro ponto a ressaltar, sem arvorar-me em gramático, é que o meme esquece que a linguagem é dinâmica e pode muito bem incorporar termos novos e erigir novas regras que os acomodem. Tem sido assim, simplesmente!

A questão não é esta, a ojeriza e as alvíssaras ao meme, apimentam a discussão porque vivemos uma luta política intensa e o que convém ao reforço das ideias, das ideologias sempre é bem-vindo, sobretudo se colocar em discussão o  Patriarcalismo Brasileiro, o Patrimonialismo confesso das nossas elites e o Machismo Desmesurado que marca as relações de gênero, as formais e as oriundas das derivas do identitarismo. O “todos” é visto como propriedade do “macho Alfa”, dono de tudo, que aparece nas relações cotidianas entre os humanos, sejam homens, mulheres e outros possíveis gêneros, como normalidade; o “todas”, na forma cerimonial, é percebida como uma concessão, uma deferência desnecessária, uma “redundância” como diz o meme do MBL. O desprezo às mulheres é tão grande que obrigou o Supremo Tribunal Federal a gastar tempo e verbo para dizer aos operadores do direito que é inconstitucional alegar em juízo, aceitar declarações ou “provas fajutas” como pretexto para  absolver o “bicho homem” que matou a companheira  “em legítima defesa da sua honra”; obrigou o Congresso Nacional a aprovar lei para que as Universidades (que alegam sempre ter autonomia) fossem obrigadas a expedir diplomas e certificados com flexão de gênero; o gênero feminino usurpado pelo masculino determinante, isto é, para que uma mulher pudesse ter o título de médica, engenheira, professora, mestra ou doutora (Lei 12.605/12); o “todes”, pronunciado por quem quer que seja ou onde quer que seja, desperta os “nossos mais baixos instintos” (como diria aquele senhor político preso) no seu extremo; na propalada benevolência, nos causa uma dor de ouvidos, um sentimento de traição à língua pátria ou complacência de ocasião, quando mais politizados somos. Por quê? Porque nomina a multidão de cidadãos de segunda e terceira categorias, seres humanos que tiveram a sua dignidade negada, humilhados diuturnamente pelo que são e por aquilo que não são. Se o termo vai pegar, não sabemos. Como forma de resistência, lembra as obrigações do Estado na defesa de todes, todas e todos na garantia da igualdade de direitos entre os sujeitos, independente dos clamores de torcidas organizadas, lacradoras ou não. Nos conformes do Artigo 5o, da CF!

 Cabe ao mesmo Estado, também, distinguir direitos fundamentais de delírios individuais ou coletivos, que atentem contra os modos de convivência, de respeito à vida da espécie humana, da sua existência e convivência digna e pacífica, mesmo na diferença. E buscar a harmonia necessária para a paz social, contrariando, até, maiorias embebidas no machismo empedernido.


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