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 O caso Eneida

Por: Robério Braga

Membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), advogado e ex-secretário de Cultura do Amazonas

Preparando o Natal

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Robério Braga

            Estamos “às portas do Natal de Jesus” como é habitual ser dito na linguagem popular sempre que se aproxima essa data especial do calendário cristão, período em que as famílias costumam iniciar os preparativos para a ceia da noite estelar, a oportunidade da confraternização de amigos, troca de lembranças, afagos e rogos de esperança, saúde e alegrias.

            Os preparativos, conforme a crença e a tradição mais arraigadas, se tornam tão solenes e benfazejos quanto os festejos do dia natalino, principalmente, quando eles alcançam que se realize a reconciliação entre os homens com algum sentimento conflagrado, mais do que qualquer outra providência de ordem material que possa ser privilegiada conforme as posses de cada um.

            Quando menino pequeno, conhecendo apenas o mundo do encanto que a esse tempo todos costumamos viver, o que mais contava para mim era ajudar a organizar a Árvore de Natal, fosse no formato mais simples, feita de galho natural extraído do quintal mais próximo o qual – minha irmã Ana Maria e eu, pacientemente, recobríamos de mechas de algodão que representariam a neve comum de se ver nos livros que usávamos para leitura e conforme as contações de histórias dos mais velhos, enquanto víamos a sofisticada ornamentação que alguns podiam adquirir nas lojas comerciais recheadas de bolas de várias cores. O que não se afasta da minha memória é que vinha do Polo Norte toda a imaginação criativa daqueles dias de maravilhosa alegria, inclusive o Papai Noel carregado de presentes a quem nunca tivemos a ventura de encontrar, mas que jamais esqueceu de nos deixar os presentes tão esperados.

            Eram dias quase intermináveis e noites longas de muita apreensão impostas pela responsabilidade que nos atribuíamos. Quantas e quantas vezes, em conversa miúda para que ninguém conseguisse ouvir, nos perguntávamos se tudo estaria conforme o gosto de nossos pais, os desejos do Menino Jesus, a vontade do Papai Noel, ou o que ainda poderíamos fazer para tornar a árvore mais bonita. Certa feita, resolvemos que seria necessário recobrir o chão da sala ao redor da Árvore, mas, não tendo mais nenhum pacote de algodão disponível resolvemos cortar uma blusa verde, de meia, que passou a servir de relva sob nossa alegoria natalina.

            Em outro ano ganhamos uma ponteira brilhosa para ser colocada no topo da Árvore, como se fosse uma estrela a qual deu brilho muito especial e realçou todo o nosso paciente trabalho. E foi ponteira do mesmo modelo e formato que, muitos anos mais tarde, mandei fazer e colocar encimando a altaneira árvore que fiz edificar no Largo de São Sebastião para ornar a cidade e fiz cair neve sobre os visitantes como se fossem sopros do algodão do meu tempo de menino.

             Passados tantos anos e amadurecido pelas lutas da vida que segue célere, compreendo melhor o enorme aprendizado que experimentamos naquelas tardes alegres e felizes em razão de nosso enorme fazer artístico, e fico me perguntando como estarão as crianças de hoje – a grande maioria delas – nessa fase do ano em que poderiam estar vivendo os preparativos para o Natal. Será que têm as mesmas oportunidades que tivemos?

            Será que perambulam pelas esquinas sem nem se aperceberem que mesmo sem recursos financeiros podem fazer uma bela Árvore de Natal, seja de galhos extraídos dos quintais, de garrafas de plástico, de tampas de garrafa, de restos de madeira, de copos descartáveis, de pedaços de pano usado ou desenhada e recortada de qualquer pedaço de jornal de modo que possa representar esse símbolo especial e sirva para alegrar o ambiente doméstico, animar o espírito e preparar o lugar em que, na noite santa, todos devem se reunir para uma oração, um abraço, agradecer pela vida e rogar bençãos dos céus com as luzes do Menino Jesus.


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