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Brasil e os 7 a 1 de 2014: uma década de promessas não cumpridas

Por: Juscelino Taketomi

Jornalista, há 28 anos servidor da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam)

Preciosidade literária: A bela “Construção” de Chico Buarque de Holanda

Em várias ocasiões, no final da década de 70, eu e meu compadre, jornalista e escritor Isaías Oliveira, saboreamos, em mesas de bar da cidade de Manaus, conversas maravilhosas sobre a obra musical de Chico Buarque de Holanda, nosso ídolo, que nesta quarta-feira (19) completa 80 anos de idade.

Quantas vezes, após o cumprimento de nossas obrigações nas redações dos jornais em que trabalhávamos, dissertamos sobre “Carolina”, “Roda Viva”, “Pedro Pedreiro”, “Olê, Olá” e outras criações luminosas do maior compositor popular deste país. Mas, especialmente uma música de Chico marcou muito as nossas conversas nas mesas dos bares e botecos que frequentávamos. Trata-se da obra-prima “Construção”.

Datada de 1971, “Construção” é um exemplo brilhante de como a música popular pode ser usada para criar uma obra de arte de rara beleza literária e suscitar um grande estudo gramatical.

“Construção” é conhecida por sua estrutura repetitiva e progressiva. Cada estrofe é composta por versos decassílabos, que conferem um ritmo cadenciado e quase hipnótico à música. Chico usa a repetição e a variação de palavras para criar um efeito cumulativo, que acentua a monotonia e a rotina da vida do operário.

A letra narra a vida e a morte de um trabalhador da construção civil de maneira poética e trágica. A cada estrofe, o personagem é descrito em sua rotina diária, culminando com sua morte no final da jornada de trabalho. A repetição de frases com pequenas variações em cada estrofe sublinha a repetição mecânica do trabalho e a alienação do trabalhador.

Chico Buarque usa o contraste para enfatizar a tragédia do trabalhador. Ele contrapõe a beleza poética das palavras com a brutalidade da realidade da vida do operário. A repetição de frases como “Morreu na contramão atrapalhando o tráfego” enfatiza a indiferença da sociedade perante a vida e a morte do trabalhador.

As escolhas de palavras de Chico são meticulosas e carregadas de significados. Ele alterna entre a descrição objetiva e poética, o que permite ao ouvinte sentir tanto a dureza da vida do trabalhador quanto a beleza intrínseca de sua existência.

A variação das palavras finais de cada verso, que passam de substantivos concretos a abstratos, adiciona camadas de significados e emoções.

Lição Gramatical

Em “Construção”, Chico Buarque demonstra o poder da repetição e da variação em uma composição. Embora as frases sejam repetidas, as pequenas mudanças nas palavras criam novas imagens e significados. Isso é um excelente exemplo de como a repetição pode ser usada de maneira eficaz na escrita para enfatizar pontos e criar ritmos.

A escolha de versos decassílabos não é comum na música popular brasileira e mostra a habilidade de Chico em manipular formas poéticas tradicionais para criar algo novo e impactante. Isso serve como uma lição sobre a flexibilidade da língua e como diferentes formas métricas podem ser usadas em diferentes contextos.

Coesão e coerência

A música é um exemplo claro de coesão e coerência textual. A repetição de estruturas frasais e a variação mínima ajudam a manter a unidade do texto enquanto desenvolvem a narrativa. Estudantes podem aprender como manter um texto coeso enquanto variam suas frases para evitar a monotonia.

“Construção” é uma obra-prima que transcende o simples ato de narrar uma história. Ela usa a estrutura poética, a escolha de palavras e a repetição de maneiras inovadoras para criar uma peça que é ao mesmo tempo uma obra literária e uma lição gramatical. Chico Buarque mostra como a música pode ser um veículo poderoso para explorar e expressar temas profundos da condição humana, ao mesmo tempo em que educa sobre as possibilidades da linguagem.

Em 1971, no auge do obscurantismo político que travou a nação brasileira, Chico foi incrivelmente criativo, gigante demais, simplesmente um gênio. Ave, poeta !


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