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O “Sangue nos Olhos”, o Autoritarismo e o Parlamento

Por: Walmir de Albuquerque Barbosa

Professor Emérito da UFAM; Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo(USP); Graduado em Jornalismo pela UFAM.

Para onde caminham os Meios de Comunicação

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Marshall McLuhan, nos anos 60 do século passado, no prefácio da sua obra seminal, Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem (1964), anunciou a Era das Comunicações e do Globalismo: “Hoje, depois de mais de um século de tecnologia elétrica, projetamos nosso próprio sistema nervoso central num abraço global, abolindo tempo e espaço (pelo menos naquilo que concerne ao nosso planeta). Estamos nos aproximando rapidamente da fase final das extensões do homem: a simulação tecnológica da consciência, pela qual o processo criativo do conhecimento se estenderá coletiva e corporativamente a toda a sociedade humana”. E é verdade! Isto está já acontecendo com a Inteligência Artificial e a Internet das Coisas. Mas, como todas as previsões messiânicas, nunca são previstos os seus efeitos colaterais. O tempo de suas realizações lhes confere a entropia e a complexidade necessárias para que todo o ideal de igualdade seja alcançado ou negado. É certo que essa euforia do progresso humano nos cânones do capitalismo já era pedra cantada e a apropriação socializada dos meios de produção tecnológicos e do conhecimento científico foram fracassando, de forma inversamente proporcional. E o que temos? A perplexidade do que não veio (a coletivização do saber) e a simulação tecnológica, feita pelos algoritmos, que levam as consciências para o moinho das vontades de um poder concentrador e universal, que dita as batidas dos sinos a reger o nosso despertar, o nosso fazer e o nosso adormecer. Primeiro foi o universo e a natureza, depois os meios e, agora, a humanidade, transformados em discurso.

Era de se supor que os Meios de Comunicação de Massa que se fizeram as instituições mais referenciadas da segunda metade do século XX – instrumentos do capitalismo liberal e de sua ideologia, bem como sendo eles, na teoria maluhaniana, a própria mensagem ou as Massagens (idade das massas) – fossem capazes de suportar as transformações avassaladoras do capitalismo e das tecnologias. Tudo indica que fracassaram e sua derrocada aponta para um vazio que nenhuma das transições por nós vistas (da pintura para a fotografia, desta para animação do cinema, do telégrafo para o rádio e do rádio para a TV) se igualam. O problema não é a transição de um modelo de comunicação para outro e sim para o desconhecido. Poderíamos responder: para o “celular”! Não se trata de mudança de um meio tecnológico para outro segmentado, embora o celular já reúna funções de vários meios tecnológicos. Qualquer novo modelo pressupõe um novo modo de vida, de práticas sociais, de relações comportamentais e afetivas, econômicas e sistêmicas, muito especiais. Não seria por outras razões que os Estados, fundados nos princípios liberais do direito, da liberdade de expressão e da igualdade entre os sujeitos de direito, estão empenhados em regular “a mídia”, hoje operando sem o alcance de uma “legislação apropriada”, visto não serem esperados os problemas de natureza tão diversa nas relações individuais, coletivas e institucionais por ela provocados.

A presença dos Meios de Comunicação tradicionais sempre foi forte entre nós, mas a força das novas mídias é avassaladora, o que nos coloca em proeminência mundial como internautas e consumidores de todos os produtos do cardápio midiático, apesar das nossas desigualdades sociais. As consequências têm sido drásticas, desorganizando todo o convívio social, as relações dos sujeitos entre si e com as instituições permanentes do Estado e da Sociedade. O uso das redes sociais para disseminação de fake news é, apenas, uma parte ínfima dos problemas ideológicos. Já os modelos de negócio a que estavam acomodados os conglomerados de comunicação, estes se esfacelaram e não há como recuperá-los. O espelho disso é o fim dos astros da mídia – as celebridades -, o fim do jornalismo investigativo, o fim das editoras e livrarias e das galerias e exposições de artes. É latente o receio: com a Inteligência Artificial; com o ímpeto do metaverso, da educação a distância, da medicina virtual, da Escola High Tech; com as Big Techs e Big Datas, que tudo veem e guardam. A transição é de um sistema fechado para um sistema autopoiético, algo que desconhecemos, mas com o “vínculo fecundante e a comunicação verbal: carne e espírito, corpo e cultura”, como no dizer de Darcy Ribeiro sobre o romance da vida toda (Testemunho, 2022).


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