Papa Francisco e a “viadagem” dentro da Igreja Católica

Por Juscelino Taketomi

Em um encontro com padres de Roma, o Papa Francisco usou o termo “viadagem” (frociaggine), no original em italiano) ao se referir aos homossexuais na Igreja Católica.

O termo já havia sido motivo de desculpas por parte do pontífice semanas antes e gerou uma nova onda de críticas e perplexidade. A notícia foi divulgada pela agência de notícias italiana Ansa e ganhou destaque nos principais jornais italianos.

Durante a conversa com os padres, o Papa mencionou que “existe um ar de viadagem no Vaticano” e reafirmou sua posição de que homens com “tendências homossexuais” não deveriam ingressar no seminário nem se tornar sacerdotes.

A declaração segue uma linha de pensamento expressa anteriormente, quando, em 20 de maio, ele teria afirmado que os seminários estão “cheios de viadagem” e que homens gays não deveriam ser padres.

Alarmados, bispos presentes no encontro com o Papa relataram ao jornal Corriere della Sera que Francisco “não tinha consciência” do quão ofensiva a palavra é em italiano, sua segunda língua. Para eles, o uso do termo representou uma gafe evidente, apesar das intenções do Papa de orientar a Igreja de forma acolhedora.

Desde sua eleição pelo colégio cardinalício em 2013, o Papa Francisco, agora com 87 anos, tem buscado orientar a Igreja Católica a ser mais inclusiva em relação à comunidade LGBT. Em dezembro, ele deu um passo significativo ao autorizar a bênção de pessoas do mesmo sexo que estão em um relacionamento, ainda que mantenha a posição oficial da Igreja contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Tapando o Sol com uma peneira

Preocupado em tapar o Sol com uma peneira, o Vaticano emitiu uma nota esclarecendo que o Papa Francisco reforçou a necessidade de acolher os homossexuais na Igreja, mas com a cautela de que essas pessoas não se tornem seminaristas. A intenção, segundo o Vaticano, é evitar que a orientação sexual interfira nos deveres e na vocação sacerdotal.

O incidente destaca o delicado equilíbrio que a Igreja Católica, sob a liderança do Papa Francisco, tenta manter entre a doutrina tradicional e a necessidade de ser mais inclusiva e acolhedora. O uso de termos ofensivos pode minar os esforços de inclusão e causar desconforto não apenas entre os fiéis LGBT, mas também entre os aliados que buscam uma Igreja mais aberta e compreensiva.

À medida que o Papa continua a navegar por essas águas complexas, suas palavras e ações são escrutinadas tanto por críticos quanto por apoiadores. O desafio para a Igreja é encontrar uma maneira de ser verdadeira à sua doutrina enquanto mostra compaixão e respeito por todos os indivíduos, independentemente de sua orientação sexual.

Há séculos e séculos

A questão da homossexualidade dentro do Vaticano e, de forma mais ampla, na Igreja Católica tem sido objeto de interesse e controvérsia ao longo dos séculos. Embora o Vaticano e a Igreja tenham mantido uma postura oficial contra a homossexualidade, há diversos relatos e casos que indicam a presença e as atividades de pessoas homossexuais dentro das estruturas eclesiásticas.

Por exemplo, durante o Renascimento e o período Barroco, houve vários relatos de papas e altos clérigos envolvidos em escândalos sexuais, incluindo acusações de homossexualidade.

Júlio III foi acusado de manter um relacionamento íntimo com seu “sobrinho” adotivo, Innocenzo Ciocchi Del Monte, que ele fez cardeal aos 17 anos. O século XX trouxe maior escrutínio e transparência, levando a alguns casos documentados de homossexualidade no clero.

Houve o caso do Cardeal Hans Hermann Groër, Arcebispo de Viena, acusado de abusos sexuais em 1995, que incluíam jovens seminaristas do sexo masculino. Ele foi forçado a renunciar após as acusações se tornarem públicas.

Outro caso envolveu o cardeal Alfonso López Trujillo. Relatórios e livros, como “In the Closet of the Vatican” de Frédéric Martel, sugerem que Trujillo, um ferrenho defensor das políticas anti-homossexualidade, era ele próprio homossexual.

Nos tempos modernos, livros e investigações jornalísticas têm lançado mais luz sobre a presença de homossexuais no Vaticano. Frédéric Martel’s “In the Closet of the Vatican” (2019). Este livro investigativo alega que muitos clérigos de alto escalão no Vaticano são homossexuais. Martel argumenta que há uma cultura de hipocrisia e segredo dentro da Igreja.

Sinuca de bico

A Igreja Católica tem tentado abordar essas questões de várias maneiras, incluindo declarações doutrinárias e medidas disciplinares. O Vaticano tem reiterado consistentemente que os atos homossexuais são pecaminosos, embora faça uma distinção entre a orientação homossexual (não considerada um pecado) e o comportamento homossexual.

Em 2005, o Vaticano emitiu um documento proibindo a admissão de homens com tendências homossexuais profundamente enraizadas ao seminário e ao sacerdócio.

A presença de homossexuais no Vaticano e no clero católico é uma realidade complexa, envolta em segredo e muita controvérsia.

A Igreja Católica enfrenta o desafio contínuo de lidar com esses casos de maneira que seja consistente com suas doutrinas, ao mesmo tempo em que responde às exigências de transparência e justiça da sociedade moderna.

Os esforços para reconciliar essas pressões divergentes continuam a moldar o discurso e as políticas da Igreja em relação à homossexualidade. O Papa Francisco, entretanto, tem sido intempestivo no trato desse assunto.


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