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Quanto mais eu rezo, mais assombração aparece

Por: Walmir de Albuquerque Barbosa

Professor Emérito da UFAM; Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo(USP); Graduado em Jornalismo pela UFAM.

Ópera-bufa

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Ópera-bufa é uma modalidade de ópera curta, em dois ou três atos, destinada a divertir ou prender a atenção do público. É exibida nos intervalos (intermezzi) da Ópera Seria. Os seus temas, normalmente burlescos ou satíricos, trazem, no fundo, uma crítica social de acontecimentos do cotidiano. Como toda produção cultural, exige script, cenários e atores empenhados em seguir as regras do gênero contidas no seu libreto. E foi um libreto, caso fortuito, encontrado no chão, nas proximidades do Teatro Amazonas, a mais bela Casa de Ópera do Brasil, em meio a um protesto improvisado pelo público indignado com o anúncio do cancelamento do 26° Festival de Ópera do Amazonas, com início previsto para o próximo mês de abril. A descrição sucinta do tal libreto, de autoria desconhecida, diz no Primeiro Ato: um ator representando um Dirigente Público adentra ao Palco com uma brocha na mão e com várias latas de tinta, de cores diferentes, dentro de um carrinho de mão, sobe em uma escada e começa a colorir uma maquete superdimensionada do Teatro Amazonas com os seus mosaicos, enquanto o Coral entoa uma cantata feita para a ocasião denominada “O Macaxeira ressurgido”, lembrando certo senhor que costumava rabiscar e pintar o chão das ruas de Manaus, nos idos do século passado; no Segundo Ato, outro dirigente, aproveitando-se do cenário colorido, que custou uma fortuna, acompanhado de uma trupe, imitando um barítono, canta uma “lambada”, música de gênero tardio e meio “chiclete”, que acompanha pessoas que crescem, envelhecem, mas não criam juízo; o palco é tomado por atores, que cantam e dançam envolvendo a plateia e pondo em risco o “ciático” de todos; no Terceiro Ato, destacam-se palanques de comício de campanha política, onde todos falam e gesticulam ao mesmo tempo, xingando uns aos outros, até que as luzes enfraqueçam e, lá do fundo, surja uma dupla sertaneja na cena, entoando uma canção do momento, que trata de um desenlace na vida amorosa, mais conhecido como “separação”. Agradecendo a presença de todos, antes que as luzes da ribalta se apaguem e caia o pano de boca do palco, um senhor circunspecto,
anunciado para o público como “Sua Excelência, o Secretário”, lê o Decreto Governamental que cancela o Festival de Ópera do ano de 2024, tendo como justificativa os gastos “necessários” no atualano eleitoral.

Cancelar o 26° Festival de Ópera do Amazonas é uma punhalada nos amazonenses, é uma estupidez sem tamanho. Sem dinheiro não se faz nada, mas poderiam ter planejado, se existisse essa consciência do essencial. Já sabemos que para nossas atividades culturais não contamos com os patrocínios de empresas da Zona Franca, nem dos bancos que exploram os amazonenses como o fazem em todo o Brasil, mas no sul maravilha patrocinam muitos espetáculos. Sabemos que o Ministério da Cultura, deste e dos outros governos, ainda pensa o Brasil nos limites do Tratado de Tordesilhas. Os dirigentes da cultura e os governantes em geral, assim como empresários deveriam saber que fazer ópera no Amazonas não é um capricho, coisa de pobre besta pensando que é ilustrado culturalmente, é destino! A tese do Prof. Doutor Otoni Mesquita nos ajuda a compreender esse destino: quando Eduardo Ribeiro, no período áureo da borracha, resolve pensar o desenvolvimento cultural da cidade, a sua visão de progresso e de processo civilizatório inclui a imponente Casa de Ópera, o
nosso Teatro Amazonas, colocando-o no centro geográfico da cidade para que, diferentemente de outras cidades, Manaus cresça em torno dele, e não em torno de igrejas, como ocorre usualmente.
Com sua restauração e a retomada dessa consciência, a partir de 1990, gerou-se uma cadeia produtiva de arte erudita, de emprego e renda: criaram-se os Corpos Artísticos (Orquestra Filarmônica, de Câmara, de Violão, Amazonas Band; Balé Folclórico; Corpo de Dança; Coral do Amazonas), o Liceu, que iniciou suas atividades com Cinco Mil alunos selecionados a partir de escolas públicas; oficinas para a produção de cenários, vestuário artístico e Luteria. Criou-se uma Escola Superior de Artes na Universidade Estadual, com curso de graduação em todas as áreas de arte e cursos de Pós-Graduação.
O Festival de Ópera é a cereja do bolo. O coroamento da obra que revela e espalha talentos para todo o Estado e até para o Brasil, num país carente de tudo, inclusive, de vergonha na cara!


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