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A família de Nietsche

Por: Luís Lemos

Professor, filósofo e escritor, autor, entre outras obras de: Filhos da quarentena - A esperança de viver novamente. Editora Viseu: Maringá-PR, 2021

O sonho do professor Caraíba

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Era meado de janeiro, já pairava no ar o final das férias escolares. O professor Caraíba espreguiçou-se na cama, abriu os olhos devagar e, por um segundo, deixou-se vagar pelos pensamentos…


“Nenhum país cresce economicamente se não investir em educação e educação de qualidade. A educação deve ser a prioridade número um de todo governo. Não importa se o governo é de direita, de centro ou de esquerda. O importante é a educação ser levada a sério. Que nenhuma criança fique de fora da escola, nenhum adolescente, nenhum jovem. Que todos os estudantes recebam as condições necessárias, econômicas, sociais, culturais e psicológicas, para entrar e permanecer na escola, na universidade, no mundo do trabalho. Que todos cresçam, aprendam e se desenvolvam intelectual, emocional, profissional e espiritualmente para os desafios da vida. Que nenhum professor receba menos do que ele precisa e merece para se manter saudável, motivado, atualizado e realizado no ambiente de trabalho. Que todo professor receba apoio econômico, técnico, tecnológico, financeiro, cultural e emocional para desenvolver o seu trabalho com excelência. Tenham acesso à cultura, livros, exposições, jornais, revistas, teatro, música, dança…”.


No ecoar dos seus devaneios, a consciência lhe chama à realidade e alguém grita seu nome. “Professor Caraíba, acorde, estamos atrasados”. Era o seu amigo Pedro. Meio que resmungando algum palavrão impróprio, o professor Caraíba respondeu mal humorado. “Já estou indo, só mais um minuto”.


No caminho para a escola lá foram eles, mas de repente o professor Pedro parou e lhe disse: “Que tal se não fossemos trabalhar hoje, poderíamos ir ao cinema!”. “Tá maluco!” – retrucou – “Somos professores”. “Mas não faria mal nenhum dar uma fugida do trabalho”. “Imagina Pedro, hoje é o primeiro dia de aula”. “Eu sei”. “Já imaginou como as crianças estão?”. “Certamente ansiosas”. “Pois é!”.


O professor Pedro ficou cabisbaixo, um pouco envergonhado com o que disse, e pediu desculpas. “Fui estúpido! Como posso sugerir uma coisa dessas!”. O professor Caraíba olhou a sua volta. “Fica calmo, meu amigo!” – respondeu-lhe. “Acho que você está certo. Afinal de contas, hoje já é sexta-feira!”. “Que país sério inicia o ano letivo numa sexta-feira?”. “O Brasil, horas!” – respondeu o professor Pedro. E os dois riram as gargalhadas!


“Professor! Professor! Não vou mais chamá-lo, só pensa em dormir, garanto que estava sonhando de novo”. Num sobressalto o professor Caraíba pulou da cama, olhou para o relógio e disse: “Ai, meu Deus! Quase perco a hora de novo!”. Mais uma vez o professor Pedro acaba com os sonhos do seu amigo, lhe acordando para a realidade. “Vamos, vamos, o ônibus 666 passa daqui a trinta minutos”. “Sim, não podemos chegar atrasados na escola”. “Às setes horas em ponto a gestora já está colocando falta para os atrasadinhos”. “Eu não quero pegar falta no meu primeiro dia de trabalho nesta escola”. “Então vamos, se apresse” – disse o professor Pedro. E cada um saiu para o seu lado!


Exausto e todo molhado de suor por causa do calor infernal que fazia dentro do ônibus lotado, o professor Caraíba iniciou a sua aula citando Nelson Mandela: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”.


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