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O dia dos povos originários

Por: João Melo Farias

João Melo Farias Poeta e indigenista.

O povo que se arrume.

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Este fato ocorreu na campanha eleitoral de 2.014, na cidade de Jutaí, e que retrata o calibre da elite política e econômica do interior do nosso Estado, o Amazonas.

As forças políticas da capital, Manaus, inclusive contrárias, se uniram para eleger como prefeita de Jutaí a senhora Marlene Gonçalves. Para isso, rumaram para Jutaí e realizaram uma reunião no clube mais tradicional da cidade, o Tuxaua, para o lançamento da campanha.

O pai da candidata, senhor Pedro Gonçalves (que Deus o tenha) era dono na época de dois empreendimentos:
i) uma serraria de porte zote (média) e
ii) um criatório de peixes tambaqui e matrinxã, também de tamanho zote, às margens do rio Jutaí.
O mesmo tinha nas duas folhas de pagamento, aproximadamente, 30 trabalhadores, os quais chamou para uma reunião, onde todos prontamente atenderam ao chamamento do patrão. Essa reunião tinha o propósito de cobrar de seus colaboradores votos para a sua filha, numa clara e persistente demonstração da existência de currais eleitorais no interior do estado em pleno século XXI. E começou dizendo:
— Essa vez é da minha filha. O Omar (Aziz) está com ela. O Eduardo (Braga) também. O Governador José Melo é nosso amigo. O Silas (Câmara) vai propor emenda ao Governo Federal para fazer, enfim, o aeroporto de Jutaí. O Deputado Belão está com ela. Até o Eron Bezerra e a Vanessa (Graziontin) que são oposição a tudo estão com a Marlene. Então minha gente até que enfim chegou a nossa vez.

O serrador Chico do Içapó perguntou:
— Seo Pedro e quais os projetos da dona Marlene para Jutaí e o quê nós vamos ganhar? Se o senhor quer nossos votos para eleger ela, o quê ela poderia nos ajudar?

O Sr. Pedro Cachorro, como era conhecido também na região, tinha recebido muito recentemente um grande prejuízo financeiro, pois a barragem do seu criatório, devido às fortes enxurraras havia arrebentado e os peixes escaparam para o rio. Então, ele precisava de financiamento para retomar esse empreendimento. E sobre este assunto, ele falou aos empregados:
— Vocês sabem que a barragem arrebentou. Estou num prejuízo daqueles, mas com minha filha Marlene na prefeitura vou recuperar meus negócios e vou gerar mais 20 (vinte) novos empregos para nosso povo jutaiense.

O empregado mais velho da serraria, Sr. Eduardo Acapuri, perguntou:
— E para nós da serraria, Seo Pedro, vai ter melhoria?
E ele respondeu:
— Vai sim. Vamos comprar um equipamento mais novo, mais moderno, mais seguro, mais econômico de energia e mais silencioso. E mais, vamos montar uma marcenaria para dar emprego para mais 10 caboclos. Então, vamos ter 60 amigos e colaboradores: 30 na serraria, 20 no peixaria e 10 na marcenaria. E quero, eu preciso desses 60 votos na chapa da Marlene para poder eu ter condições de “mexer os pauzinhos” da engrenagem política para a gente ganhar esses benefícios em nome do povo.

Um outro trabalhador Edvaldo Marauá perguntou, então:
— Seo Pedro, tem mais algum benefício para a gente?
E ele emendou.
— Sim, ela vai bancar um comércio grande, novo, para o Lambari, (Raimundo Wilson) seu marido, para que, quando o mandato terminar eles tenham condições de viver bem.

Um outro trabalhador voltou a pergunta do colega:
— E o povo Seo Pedro!
E ele de pronto, já meio puto, respondeu:
— O povo que se arrume, como sempre fez, com a ajuda de Deus.


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