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O povo que se arrume.

Por: João Melo Farias

João Melo Farias Poeta e indigenista.

O Pé do Gigante Juma

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O Convite


Em 2.010 fui convidado para participar de uma reunião dos índios Mura na aldeia Taracuá, rio Mataurá, terra indígena Pinatuba, município de Manicoré, margem direita da calha do médio rio Madeira, neste estado do Amazonas.

O objetivo da reunião era retornar a jurisdição das aldeias de Manicoré para a Administração Regional (como se chamava a unidade da Funai na época) que, na reforma administrativa de 2.009, passaram a ser subordinadas à Administração Regional de Humaitá. Nesse tempo Humaitá era coordenada por um indígena da etnia Parintintin e os Mura de Manicoré, etnocenticamente, rejeitaram essa decisão tomada pelos “iluminados” dos gabinetes da sede da Fundação Nacional do Índio-Funai/Brasília, que, mesmo desconhecendo a geografia e hostoriografia regional se arvoraram em efetivar uma reforma de cima para baixo.

Foram convidados também um servidor da Unidade de Humaitá, Domingos, e um outro, de Porto Velho, Cléber, que já se faziam presentes na cidade de Manicoré.

Ajustamos com os colegas que a demanda do povo originário Mura era justa, que deveríamos aceitar a decisão do coletivo e construir e encaminhar um parecer técnico para a sede da Fundação para reverter a situação da jurisdição, tal como era antes da reforma de 2.009. Com esse sentimento conciliador rumamos de lancha/voadeira, via fluvial, para a aldeia.

A Reunião


Chegamos no fim do dia. Após o jantar e já devidamente alojados comunicamos nossa opinião aos líderes do movimento indígena, como forma de a gente ganhar tempo, uma vez que a reunião estava programada para três dias. Com a nossa decisão, julgamos oportuno que bastaria um dia de discussão, para esse assunto, haja vista o ajustamento de nossa decisão politicamente favorável ao pleito.

Na manhã do dia seguinte, após o café da manhã, iniciou-se a reunião no barracão da aldeia. Como de praxe todos os presentes foram chamados a se apresentar; foi escolhida a comissão dos relatores com o propósito de escrever a memória da mesma.
Tudo corria bem até que, com aproximadamente 20 minutos de reunião, um indígena que se intitulou líder dissidente e anunciou o golpe na Diretoria da OPITTAMP – Organização dos Povos Indígenas Torá, Tenharim, Apurinã, Mura e Purahã que coordenava o evento e falou que a reunião estava suspensa bem como toda a Diretoria da OPITTAMP estava destituída.

O pessoal do Cimi, Idam e demais entidades foram convidadas a se retirar. Uma comissão seguiu com eles para noticiar a imprensa na cidade de Manicoré. Todos os convidados puderam deixar o evento: menos nós três servidores da Funai, que deveríamos ficar até que a Sede da Funai, Brasília, enviasse um “negociador” com poderes de decisão para reverter a jurisdição das aldeias de Manicoré.

Escolheram uma moradia no centro da aldeia para a gente ficar e melhor vigiarem, para que não fugíssemos.

Eu, deverasmente, conhecia pessoalmente quase todos, pois havia construído a sede física do Posto Indígena Manicoré e por quatro meses respondi pela chefia do mesmo. Esse conhecimento permitiu que eu circulasse com maior liberdade que os outros dois. Eles, para passar o tempo propuseram a travessia do rio, com 40 metros de largura, pelos meninos que se banhavam, em porfia, e quem ganhava recebia um pacote de bolacha ou um chocolate. Quando os “novos líderes do movimento” perceberam, foram lá e obrigaram os colegas a interromper o banho de rio e as porfias de nado. Do meu lado, eu podia andar pela aldeia, ir ao campo de futebol, ir as rocas arrancar mandioca e nadar no rio. Isso causou um constrangimento entre os colegas: eu podia e eles não. Expliquei-lhes a minha proximidade e a relativa confiança que depositavam em mim para fazer com que Brasília aceitasse o seu pleito.

Os dias da retenção


E assim passamos pelo primeiro dia. No segundo, a impressa chegou em lancha/voadeira ávida pela notícia. Nos exibiram como troféus. E interessante, o pessoal da TV local deixou uma lancha abastecida e com a chave na ignição. Era um convite à fuga. Os dois colegas vieram conversar comigo para tomarmos a decisão de fugir. Ponderei que não deveríamos fugir, pois isso desmoralizaria o movimento indígena, e era isso mesmo que os inimigos dos indígenas poderiam estar tramando junto com a imprensa para a história render mais um capítulo e os indígenas correriam o risco de não concretizar a reversão da decisão. Conversa vai, conversa vem, decidimos ficar e aguardar o fim da retenção de forma pacífica e colaborativa como soe ser a postura de um indigenista que tem compromisso com a causa indígena.

A Caçaria


No terceiro dia tomei conhecimento que fariam uma caçaria; pedi para ir junto, que deixaram, conquanto eu não portasse arma de fogo. No quarto dia, saímos (eu e os caçadores), os colegas de Humaitá e Porto Velho “ficaram no castigo”.

Caminhamos por duas horas rumo a um barreiro (local geralmente onde brota água salobra rica em sal mineral, onde os animais vão lamber ou bicar o barro molhado para suprir suas necessidades desse mineral. Também pode ser chamado de lambedor e que serve às antas, porcos, veados e até papagaios e periquitos.

Chegamos ao local em baixo de uma forte chuva, porém os indígenas entraram em alvoroço. Eu, alheio ao debate olhava a chuva cair aos bagos sobre as folhas da floresta rasteira. Buscava me ambientar a umidade da chuva com o vapor morno que brota do chão da floresta nesses momentos.

Até que me chamaram para a roda de conversa e me disseram:

  • O gigante Juma esteve aqui. Olha as marcas dos pés dele aí no chão. E é muito perigoso pela proximidade da aldeia. Nunca tivemos um tão próximo.

Já ouvira várias histórias desse gigante, mas cria piamente que era mito. Agora ver uma pegada assim de pertinho foi como ganhar um prêmio de loteria sozinho. Mas não acreditei que fosse verdade, mesmo diante do inusitado. Por fim perguntei.

  • O que posso fazer?
  • Fotografar, volte a aldeia com dois caçadores, vamos esperar aqui vocês aqui com sua máquina fotográfica para registrar essas imagens. E assim eu fiz. Quase que correndo voltei a aldeia, apanhei minha máquina fotográfica e voltei ao local do avistamento.

As fotografias


Fotografei, então, uma pegada enorme impressa no barro mole com 49 centímetros de comprimento; 4 centímetros no calcanhar, e, nas parte dos dedos, 27 centímetros de largura. A pegada do barreiro era funda demonstrando que o corpo que ela sustentava era pesado; a planta do pé não tinha curvatura; o dedão do pé direito arregaçado para fora; e várias outras pegadas estavam muito fortes no barro, mas chegamos a conclusão que se tratava de uma só marca. Era, portanto, apenas um espécime. Em seguida me mostrarem o caminho que as pegadas tomaram. Assim pude ver, com meus olhos míopes, que existia um caminho feito na mata, imperceptível, visível somente aos olhos experimentados dos mateiros indígenas. O caminho era uma trilha de galhos quebrados. Como os galhos eram finos a quebradura se misturava as folhas e os galhos não estavam caídos no chão da floresta coberto de folhas secas. Mas tinha uma coisa interessante, era como se o caminhante fosse em frente, quebrando os galhos e puxando para trás de si, como que fechando o caminho para não ser seguido. E me mostraram outra curiosidade muito importante desse caminho aberto rumo ao centro da mata: os galhos da mata baixa não morriam, eles se regeravam mesmo quebrados; o mesmo acontecia com os talos das palmeiras inajás, tão duras para serem quebrados, mas eram quebradas, voltados para dentro do caminho e também se regenerava-me. E um indígena, mesmo com toda rusticidade da roça não seria capaz de vergar o talo de uma folha da palmeira Inajá com as mãos.

Voltamos para a aldeia em clima de apreensão, pois disseram ser muito perigoso o enfrentamento com um ser desse tamanho, com compleição de homem e que se armava com tacape ou cacete de madeira. E passamos os demais dias em clima de espera.

O negociador

Transcorrido o oitavo dia, chegou a aldeia um Procurador Federal, enviado de Brasília, o advogado indígena, Vilmar Guarani, com poderes da Presidência para negociar. Em menos de duas horas, com a ajuda dos três indigenistas retidos na aldeia Taracuá, se resolveu a pendenga.

Após os oito dias de reclusão e, verdadeiramente exaustos, mas sem mágoas dos indígenas rumamos num barco/motor para a cidade de Manicoré onde fomos recebidos como celebridades pelo povo daquela cidade, que nos aguardava no porto da cidade. Imediatamente nos levaram para a casa da mãe do vereador Junhão, que nos ofereceu comida caseira, sorvete como sobremesa e a todo instante nos perguntava se estávamos bem.
Que respondíamos.

  • Claro que estávamos bem, muito bem obrigado!

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