WhatsApp Image 2022-08-30 at 08.29.13
A ponta da inspiração.

Por: João Melo Farias

João Melo Farias Poeta e indigenista.

O Criador e a Criatura

WhatsApp Image 2024-05-15 at 16.04.51

Urrou meu novilho
Na praia pequena
Na beira do rio.
O meu boi urrou,
O meu povo sorriu.
Lindolfo Monteverde

Estes cincos versos de autoria de Lindolfo Monteverde estão lincados ao tempo das pescarias e das cantorias surgidas na Baixa da Xanda. A vida na Baixa foi, sem dúvida, a grande referência criativa para Lindolfo junto ao velho curral do Boi Garantido. Alguns de seus versos foram frutos das pescarias quase que diárias que, diga-se de passagem, tomavam grande parte do seu tempo, vez que os apetrechos de pesca daquele tempo eram: a gaponga, o espinhel, a tarrafa, o caniço e a zagaia, que só permitiam a pesca artesanal. A malhadeira e os motores rabetas só muito depois chegaram para estas bandas. Naquela época sem caixas de isopor e gelo para conservar os peixes, o pescador era obrigado a meter as mãos no cabo do remo e ir aos lagos pescar e voltar antes que os peixes ficassem moídos (estragados).

Lindolfo Monteverde, com certeza, criador e amo do Boi Bumbá Garantido dividia o tempo das remadas, caniçadas e carapanzadas com a paciente arte de pescar versos no universo das águas encantadas e dedica-los ao seu Brinquedo de São João, ou Boizinho como gostava de se referir ao Boi Garantido.

Com a admiração que me toca pela arte criativa de mestre Lindolfo, creio que o ambiente dos igapós eram os preferidos para a pescaria de versos, posto que no igapó apesar da abundância de peixes, abundam também o solfejo monocórdio dos carapanãs; as sombras e penumbras das grandes árvores; os gorjeios e trinados dos passarinhos; os cheiros das orquídeas das várzeas que, como dádiva dos Divinos Amazônicos, emolduravam as toadas criadas nesse ambiente que requer silêncio absoluto para não afugentar os peixes.
Esse ambiente mágico era o local onde Lindolfo maquinava os seus versos de memória enquanto esperava, pacientemente, pelas fisgadas dos tambaquis, tucunarés, sulambas, aracus e etc, que iriam compor suas enfiadas de peixes.

Lindolfo do banco de sua montaria (pequeno casco para apenas uma pessoa, fazendo as vezes de um cavalo fluvial), era o mestre pescador. No retorno para a cidade de Parintins, via os bois de verdade pastando nas margens do rio. Naquele tempo, durante as secas do rio Amazonas, uma pequena praia se formava com as areias do aluvião na entrada da Baixa do São José, que foi chamada localmente de “Praia Pequena” ou “Praia do Lençol”. Esse ambiente, com certeza, rendeu também pelo menos duas toadas ao mestre pescador e versador Lindolfo Monteverde.

Outra curiosidade que me move, é quê, mestre Lindolfo, humilde pescador não possuía o sonho de ser dono de um boi sequer de carne. Ele se comprazia em cultuar poeticamente e somente o Garantido, o seu boi de pano que além de lhe fornecer uns “trocados” para custear as despesas da “matança”, com carne de boi real e gengibirra (cachaça com mangarataia) para “queimar o dente” dos seus amigos que com ele se confraternizavam no dia 17 de junho, dia em quê o boi de pano era “guardado” até o próximo ano. Esse fato, com certeza, o colocava socialmente no topo da pirâmide social, pois com o seu “brinquedo” ele Garantia a alegria e o respeito da comunidade em que vivia: a Baixa da Xanda.

E Lindolfo completa a toada com mais sete felizes e imortais versos:

Acorda morena bela e vem ver,
O meu boi serenando no terreiro,
É assim mesmo que ele faz lá na fazenda,
Quando avista o vaqueiro.
Dança, dança Garantido
Como mandei te ensinar,
Dança, dança boi bonito
Pro meu povo apreciar!

Urrou meu novilho!


Qual sua Opinião?

Confira Também