5 de julho de 2026
Muito além das fachadas, o Centro quer viver outra vez
Mais do que restaurar casarões, Manaus busca fazer o Centro Histórico voltar a ser um lugar de encontros, cultura, turismo e oportunidades.

Por décadas, o Centro Histórico de Manaus viveu uma contradição. Enquanto preservava alguns dos mais importantes símbolos da história da capital, no fim da tarde, quando as portas do comércio começavam a baixar, as ruas esvaziavam. O movimento diminuía, as calçadas perdiam vida e uma região que já foi o coração pulsante da cidade parecia entrar diariamente em estado de espera até a manhã seguinte.
É justamente essa rotina que Manaus vem tentando mudar.
Nesta semana, o anúncio feito pelo prefeito Renato Junior acrescentou mais um capítulo a esse processo. A proposta de transformar a rua Bernardo Ramos em um polo gastronômico e levar três secretarias municipais para o Centro até o primeiro semestre de 2027 não representa apenas novas obras ou mudanças administrativas.
As medidas seguem uma lógica adotada por cidades que conseguiram recuperar áreas históricas: centros históricos só permanecem vivos quando voltam a ser ocupados pelas pessoas, transformando um espaço de passagem em um lugar de permanência.
Não basta restaurar fachadas. É preciso devolver movimento.
É uma mudança de lógica que ajuda a entender por que a revitalização do Centro passou a reunir iniciativas tão diferentes entre si. Enquanto uma equipe recupera um casarão histórico, outra trabalha para instalar empresas de tecnologia. Ao mesmo tempo em que se fala em turismo, discutem-se moradia, assistência social, comércio, mobilidade e segurança.
Tudo faz parte do mesmo quebra-cabeça.
Durante décadas, Manaus assistiu ao deslocamento gradual das atividades econômicas para outras regiões da cidade. Novos bairros cresceram, grandes centros comerciais surgiram, condomínios avançaram para as zonas Norte e Oeste, e o Centro foi ficando cada vez mais dependente do horário comercial. A cidade cresceu, mas seu núcleo histórico perdeu moradores, investimentos e parte da sua importância cotidiana.
Recuperar esse protagonismo exige muito mais do que pintura nova.
É por isso que um dos movimentos mais interessantes dessa transformação talvez nem seja o mais visível. Antigos casarões estão deixando de ser apenas patrimônio para abrigar startups, empresas, espaços de coworking e projetos ligados à bioeconomia. Em vez de transformar o Centro em um grande museu a céu aberto, a proposta é fazê-lo produzir conhecimento, gerar empregos e atrair novos empreendedores.
Ao redor desse novo ecossistema surgem incentivos fiscais, serviços, restaurantes, cafeterias e pequenos negócios que dependem justamente da circulação diária de pessoas.
A mesma lógica aparece na relação da cidade com o Rio Negro.
Durante boa parte da história de Manaus, era o rio que apresentava a cidade a quem chegava. Aos poucos, essa conexão foi se perdendo. Nos últimos anos, entretanto, o píer turístico, o Mirante Lúcia Almeida e a revitalização da orla buscam inverter uma lógica histórica: fazer com que Manaus volte a olhar para o rio que lhe deu origem e deixe de tratá-lo como o quintal de uma cidade que cresceu de costas para sua maior paisagem.
Hoje, famílias voltaram a ocupar espaços onde antes havia apenas passagem. Turistas encontram novos pontos de visitação. O pôr do sol voltou a reunir moradores em um cenário que parecia esquecido por muitos anos. Talvez essa seja a imagem mais simbólica de todo esse processo.
Mas revitalizar um Centro histórico também significa enfrentar problemas que não desaparecem apenas com novas obras. A região continua convivendo com desafios sociais profundos, população em situação de vulnerabilidade, necessidade permanente de zeladoria urbana, segurança pública e organização do comércio informal. Ignorar essa realidade seria transformar a revitalização em um simples projeto de maquiagem urbana.
Ainda há muito por fazer. Nada disso acontecerá de um dia para outro. Talvez seja cedo para dizer que Manaus conseguiu devolver ao seu Centro o protagonismo que ele já teve. Mas também seria injusto afirmar que nada mudou.
Entre casarões restaurados, novos empreendimentos, turistas caminhando pela orla, servidores públicos que em breve ocuparão novos prédios, restaurantes que começam a surgir e moradores que voltam a olhar para aquela região como endereço possível, o velho coração da cidade ensaia novamente seus batimentos.
E talvez essa seja a notícia mais importante de todas. Porque uma cidade nunca perde apenas seus prédios quando abandona o seu Centro. Ela perde um pouco da própria memória.
E recuperar a memória, às vezes, é o primeiro passo para construir o futuro.
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