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Por: Robério Braga

Membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), advogado e ex-secretário de Cultura do Amazonas

 O caso Eneida

Muito tem dado o que falar, ainda nos dias que correm, pelo menos entre pesquisadores sérios que buscam saber das intimidades de alguns episódios famosos ocorridos na política amazonense, como o “Caso Eneida”, de 1931, no primeiro governo do jovem Álvaro Botelho Maia e vigor dos primeiros dias da revolução getulista de 1930.

Digo isso, porque, dia desses, ao trocar conversa com duas professoras doutoras da Universidade Federal do Amazonas – daquelas que se recomendam pela qualidade dos estudos já publicados e das teses defendidas – falei do assunto e elas não tinham maiores informações, ou melhor, nenhuma informação a respeito, apesar de estarem estudando a vida e a obra política do “velho Tuchaua”, como Álvaro ficou cognominado.

Tratou-se do defloramento de uma mulher amazonense, praticado por Abdon Villareal, estrangeiro, mais com influência pelo exercício do cargo de prefeito da cidade de Letícia, e que, estando em Manaus, teria “se aproveitado” da jovem pelas bandas do antigo lupanar “Florestas”, para onde a conduziu do seu local de trabalho no centro da cidade. Detido e recolhido ao xadrez, o referido cidadão foi libertado por ordem de habeas corpus expedida pelo Tribunal de Justiça do Amazonas.

Em razão de mobilização popular que levou muita gente a protestar contra a decisão judicial, entre os quais os líderes do Clube 3 de Outubro chefiados por Fraga Cruz e Eneida Sant´Anna, em via pública, em marcha para a residência do procurador geral do Estado, dr. André Araújo e depois para a frente do Palácio Rio Negro, onde estava o interventor, todos clamando e impondo – em nome da revolução vencedora -, o afastamento dos desembargadores que haviam votado pela liberdade do prefeito.

Levado pelas circunstâncias, por arroubo da juventude, pressão popular e desejo moralizador da coisa pública, Álvaro terminou por atender essa parte do povo e afastou os desembargadores de seus cargos o que gerou enorme confusão política, social, de relações familiares e no mundo maçônico, chegando ao conhecimento de Getulio Vargas, do ministro da Justiça e de Juarez Távora, o chefe revolucionário do Norte.

Foi período de larga resistência do Clube 3 de Outubro, de intensa cabala e cabo de guerra entre clubistas aliados a alvaristas contra a maçonaria e vários membros do judiciário e da política amazonense. Uma verdadeira crise político-institucional foi estabelecida, tudo para lavar a honra de Antônia Maria de Arruda, a deflorada, como se dizia na época.

Hamilton Mourão – um dos aposentados -, comandou a reação do triunvirato demitido que dirigiu carta ao interventor, fez reclamação ao presidente Vargas, entrou com ação no Supremo Tribunal Federal, ocupou a imprensa e agiu em lojas maçônicas para, ao final, conseguirem a demissão de Álvaro, seu afastamento de Manaus e a nomeação de outro interventor que teve como primeira missão a de reempossar o trio nos antigos cargos da alta magistratura. Álvaro voltaria ao poder sendo eleito deputado federal constituinte (1934), reeleito e em seguida escolhido governador do Estado (1935-1937), tendo sido depois interventor federal até 1945. Eneida caiu em desgraça com o Clube 3 de Outubro perdendo prestígio local e nacional; Abdon Villareal deve ter retornado a Letícia; enquanto de Antônia, a “prejudicada”, não se tem sequer notícia e nem mesmo emprestou seu nome ao caso que se inscreve na história política amazonense, o que coube à líder do movimento popular que levou á demissão dos desembargadores.


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