Colunistas (post) (4)
O valor do perdão

Por: Luís Lemos

Professor, filósofo e escritor, autor, entre outras obras de: Filhos da quarentena - A esperança de viver novamente. Editora Viseu: Maringá-PR, 2021

O beijo de Ajuricaba

m_escola-criança-desenhando

Na galeria Maloca, à Rua Barroso, no centro de Manaus, achava-se repleta de obras de artes, todas produzidas por artistas locais, com destaque para as obras indígenas. “Mamãe, eu não sei se já lhe disse, mas muito obrigado pela senhora me trazer para esse banquete intelectual. Quantas obras lindas…” “Filha, eu sempre vou fazer de tudo para você ter a melhor educação do mundo”. Sophia, desde os sete anos de idade, quando fez o seu primeiro desenho, sempre se destacou pelos traços. “Quem fez esse desenho no seu caderno, Sophia?”, perguntou a sua professora. “Fui eu, professora!”, respondeu Sophia, timidamente. “Eu preciso falar com seu pai”. “Eu não tenho pai, professora, só mãe”.

Dona Rebeca, a sua filha tem um jeito todo original de desenhar, um traçado diferente, igual nunca vi nesses anos todos que trabalho na escola Esperança. — Professora, apesar da minha pouca idade eu tenho como lema de vida à frase do pintor francês Nicolas Poussin (1594-1666): “O que vale a pena ser feito vale a pena ser bem-feito”. “A única preocupação que eu tenho com a minha filha é que alguns amigos próximos lhe chamam de perfeccionista, outros, ainda, de perfeitinha”. “Isso é verdade professora, mas eu gosto é de ser chamada de caprichosa”, respondeu Sophia.  A ideia de capricho lhe remetia ao seu avô, João, que fora professor de Língua Portuguesa, na década de 70, numa escola pública na periferia de Manaus. “Minha neta, a pessoa caprichosa não é somente quem faz bem o seu trabalho, mas quem faz com afinco, persistência e coragem”. Quando Sophia leu essa frase, escrita à mão pelo seu avô, no cartão de aniversário de 15 anos que recebeu pelos correios, começou a desenvolver dentro de si a ideia de capricho. “Filha, dias antes de morrer, o seu avó veio me visitar e me entregou este pacote. É para Sophia, disse-me. É para ela abrir quando completar 15 anos – dizendo isso ele se foi para nunca mais voltar”.

Quando Sophia abriu o presente, encantou-se com as obras: “O Rapto das Sabinas”, “Os Pastores da Arcádia” e “Inspiração do Poeta”, de Nicolas Poussin. “Meu deus do céu, que presente lindo. Obrigado vovô, onde quer que o senhor esteja!”. Três meses depois, Sophia expõe sua obra “O beijo de Ajuricaba”, na galeria Maloca, retratando a história de amor do líder indígena Ajuricaba com sua esposa Jurema, que lutou com bravura e resistência contra a colonização portuguesa na Amazônia durante o século 18 e foi escolhida em primeiro lugar. Quando recebeu a notícia da premiação, Sophia saiu correndo, vermelha, para junto de sua mãe e de sua professora, ficando todas abraçadas e em prantos de alegria. A professora repetia em voz alta, para que todos ouvissem: “A educação salva! A educação salva!”


Qual sua Opinião?

Confira Também