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O centenário da revolução

Por: Robério Braga

Membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), advogado e ex-secretário de Cultura do Amazonas

Negritude no Amazonas

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Robério Braga

Após pouco mais de 40 anos, entrou na fase final de produção editorial uma obra que escrevi para ser publicada em 1984, por ocasião do centenário da abolição da escravatura africana no Amazonas, a pedido ou por recomendação do professor Arthur Cézar Ferreira Reis que ainda me deu o privilégio de prefaciá-la.

O leitor pode estar se perguntando por que somente agora esse estudo virá a público, tantos anos depois. A explicação mais detalhada consta da abertura do livro, mas, em síntese, isso decorre do fato de que a editora para a qual foi enviado, em fins de 1983, apesar das boas referências que todos tínhamos de seu trabalho gráfico, após remanchar com a edição, deu a notícia de haver extraviado parte do texto e me devolveu o que havia sobrado.

Ainda não manejava computador e o trabalho foi todo feito na máquina de escrever. Após alguns bons anos de pesquisa, portanto, a reconstituição passou a ser feita a partir de manuscritos que havia guardado e das partes que a editora havia devolvido. Ao mesmo tempo, ainda precisei catar, uma a uma, todas as referências bibliográficas e recompor as notas de rodapé, conferindo as transcrições.

Durante alguns anos, fiquei desolado com o fato e deixei guardados os manuscritos e algumas cópias em papel carbono, mas foram estas que, pacientemente, mas com certo desapontamento, fui utilizando e conseguindo dar forma ao livro, com todo o volume de informações antes coletadas.

Com cerca de 400 páginas, levantamento em inúmeros jornais, em documentos cedidos pelo próprio professor Arthur Reis, coletas no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, na Biblioteca Pública, no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e pelo manuseio de inúmeros autores reconhecidos, a obra denominada “O Negro no Amazonas”, assim mesmo, para guardar consonância com o projeto original, cuida de noticiar a introdução de africanos, a escravização criminosa mas legalizada, a comercialização odienta, mas perfeitamente admitida naqueles anos do império, nos quais homens, mulheres e crianças eram tomados como mercadoria ou peças da Índia, como eram chamados Brasil afora.

Mesmo sabendo que a ela perdeu o pioneirismo regional que detinha naquela ocasião, visto que outros pesquisadores já publicaram vários trabalhos neste sentido — voltados para a escravização de africanos no Amazonas e como se deu a abolição em nossa terra — e porque ainda creio que ela apresenta informações preciosas, em respeito à pesquisa desenvolvida, ao inspirador do estudo o professor A. Reis, ao debatedor da matéria, o meu prezado amigo e colega de pós-graduação, Vicente Salles, e impulsionado pelo amor de minha amada Rosa que tudo tem feito para que esta obra venha a público, anuncio que, dentro em breves meses, finalmente, esse filho muito querido ganhará asas e partirá para contribuir com ainda rara bibliografia a respeito do tema.

Surgirá quando o cenário social, acadêmico, político e econômico é completamente diferente daquele que caracterizava os anos 1980, e quando algumas expressões utilizadas nas relações usuais em família, na escola, na literatura e na música popular passaram a ser consideradas ofensivas, mas ousei respeitar os originais então produzidos.

Estarei com a missão cumprida quando puder vê-la, de mão em mão, pronta para inspirar novos estudos, pois há muito a fazer nessa arqueologia da história da expressiva contribuição africana para nossa terra e nossos valores.


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