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Centro Cultural Palácio da Justiça

Por: Robério Braga

Membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), advogado e ex-secretário de Cultura do Amazonas

Memórias da Loucura

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Robério Braga

Faz alguns anos, procurado pelo médico e fraterno amigo Dr. Rogélio Casado, figura singular das ciências clínicas em nosso Estado, entusiasta das artes e das letras, um pouco boêmio e um tanto rebelde – o que era muito próprio de sua geração -, fui procurado por ele para que permitisse que os pacientes do então Centro Psiquiátrico “Eduardo Ribeiro” e seus familiares pudessem realizar um abraço simbólico no Teatro Amazonas, como terapia de integração e valorização social. Na ocasião, fiz um desafio ao prezado amigo, logo aceito com entusiasmo: organizarmos uma exposição de arte com as obras dos seus pacientes.

A Galeria do Largo que havíamos criado como um dos vetores de animação cultural para o Largo de São Sebastião estava em alta efervescência, e foi lá, em recanto qualificado sob todos os pontos de vista, que o desafio foi cumprido. Não se tratou de mais um registro de artistas, mas da mostra de peças que traduziam não só a genialidade, o sofrimento, a angústia, as memorias, a decepção e o desligamento do mundo exterior por parte de seus criadores, mas, também, a inspiração e o prazer que redundaram em um processo coletivo de alto significado médico, artístico e político social.

Na interpretação da professora de artes e terapeuta do Centro Psiquiátrico Monique Marie Rothen, a exposição também era “uma alternativa de tratamento às pessoas com transtornos mentais”, e refletia o resultado de um intenso e dedicado trabalho iniciado em 1985, silenciosamente e em reclusão, desde quando os autores das peças expostas passaram a se ambientar com essa terapia pela arte, a conhecer pincéis, tintas, paletas, papéis e o que poderiam fazer.

A exposição e o abraço no Teatro Amazonas foram realizados em 2012, ao mesmo tempo em que as novas e modernas formas de relacionamento médico-paciente-famílias iam ganhando espaço e demonstrando resultados insofismáveis, aquilo que a professora chamou de comprovação do potencial autocurativo da arte. Premiados na Galeria estavam Radson, José, Rufino, Getúlio, Rosalina, Valdir, Zacarias, Sônia, Socorro, Francisco, Sandra, Adalberto, Erivelton, Elizabeth, Fátima, Arlindo, Moisés e Zezinho com trabalhos individuais e algumas obras coletivas ou em grupo.

O trabalho terapêutico rompia os muros do Centro hospitalar, conquistava visibilidade, demonstrava o valor da arte, contribuía na reintegração dos artistas com outros segmentos da sociedade e resultava de trabalho conjunto de dois órgãos do Governo do Estado com políticas públicas aparentemente distantes e apartadas: a Secretaria de Cultura e o Centro Psiquiátrico.

Essa “invenção-desafio” só se tornou possível graças à liderança técnica de Cleia Viana, então diretora da Galeria, à curadoria de Otoni Mesquita com sua sensibilidade singular, ao estudo crítico de Turenko Beça e, antes de tudo, pela atuação esmerada dos artistas e de seus preceptores clínicos.

A exposição “Memórias da Loucura” se transformou em um belo acervo de arte que foi adquirido pela Secretaria de Estado de Cultura mediante pagamento das obras diretamente aos artistas e foi incorporado à Pinacoteca do Estado, perfilando-se com outros operadores das artes como Moacir Andrade, Afrânio de Castro, Jandr Reis, Cláudio Andrade, Sérgio Cardoso, Auxiliadora Zuazo, Rita Loureiro, Manoel Borges, Fernando Júnior… e outros tantos e tantos, amazonenses ou não.

É essa mesma exposição, em novo formado e em outro ambiente – agora no Centro Cultural Palácio da Justiça – que voltou à cena e está aberta ao público, digna de ser revisitada por quantos admiram as artes visuais e valorizam as oportunidades de usufruir de seus direitos culturais.


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