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Contra a Idolatria

Por: Robério Braga

Membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), advogado e ex-secretário de Cultura do Amazonas

Manaus em 1878

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Permaneço, caros leitores, com a mania de andar catando o passado para redescobrir a forma de vida dos amazonenses de coração e por opção, redesenhar a forma do cotidiano e apresentar nesse canto de página, faz mais de 50 anos. Nesse sentido tenho recolhido, também, as observações dos viajantes e algumas notas esparsas em vários autores que se dedicaram a estudar a história provincial, com o intuito de traçar um perfil da nossa cidade em décadas as mais diferentes.

A escolha do ano de 1878 foi por acaso, já que encontrei entre os meus guardados as anotações que fiz anos passados e que agora se acham mais ou menos organizadas em arquivo de computador, esse meio moderno de guardar a memória desprezando os papéis que o tempo se encarregava de amarelecer, mas, confesso, com os quais me dava (e me dou) muito melhor.

Naquele tempo havia por aqui um único e modesto hotel que hospedava os viajantes, mas já era comum que nossa gente deixasse o seu aconchego para agradar melhor ao visitante, chegando a ceder os próprios aposentos quando o hóspede era titulado, bem recomendado ou religioso.

A cidade era praticamente plana, mesmo ostentando duas cachoeiras, estando a menor a apenas três milhas, com água muito fria; e a maior, também com água bastante fria e queda de alguns pés. Eram quatro os igarapés que rasgavam a cidade com águas puras e a cercavam por todos os lados. Havia pontes e casas entre palmeiras e bananeiras e flores deslumbrantes. As edificações mais solenes, pelo menos no título conferido aos prédios do Tesouro, Alfândega, Palácio da Presidência, assim chamados mesmo que feitos de taipa, cobertos de telhas, sem forro e sem luxo, certamente porque o governo, como anunciavam os viajantes mais observadores, estava longe de ser rico.

Ao que se lê na imprensa citadina e nas memórias de viajantes havia abusos, porque dos cerca de 5.000 habitantes, 3.000 deveriam ser funcionários públicos, e a matriz, ainda em obras, estaria custando mais do que o Teatro de Belém, se tomados os dados comparativos.

Usava-se sobre casaca preta, abotoada, pesada cartola, peitilho na camisa, luvas e sapatos de verniz como trajes apropriados para os domingos, sendo isso considerado como símbolo da civilização. E tudo isso no infernal calor. Era preciso fugir das pressões e da subjugação paraense que, naquele tempo, fixava juros ainda mais altos para o nosso comércio, funcionando quase que como “sanguessuga”, como diziam.

Dentre os habitantes da época era mais fácil obter qualquer prosa, informação ou notícia se perguntado aos indígenas, pois estes a tudo respondiam, mesmo sem saber ao certo, enquanto os brancos eram calados e desconfiados e pareciam não se interessar por nenhuma novidade que aportasse na pequena cidade.

Cidade ainda em formação, que parecia acolhedora, mas com poucas opções de compras até de alimentos e quase nada de diversão, religiosa ao extremo e votada a Nossa Senhora da Conceição, elevada a Província e com governo próprio, eleições quase sempre tumultuadas apesar de serem os mesmos os eleitores e os eleitos que se revezavam no poder e nos cargos mais importantes e mais bem remunerados pelos cofres públicos.

Com virtudes e defeitos seguiu sendo desejada e assombrando os que nela aportavam pelo vigor das matas e das águas.


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