Manaus e o problema dos igarapés de plástico

Má gestão dos resíduos sólidos é gargalo do desenvolvimento

Estudo aponta caminhos para abordar o problema

Por Juscelino Taketomi

Manaus, a capital do estado do Amazonas, é uma cidade rica em história e cultura, marcada pela sua proximidade com a imensidão da floresta amazônica. Ouço falar disso desde a minha infância.

No entanto, como muitas outras áreas urbanas em todo o mundo, Manaus enfrenta desafios significativos relacionados à preservação ambiental e ao desenvolvimento sustentável. Portanto, é uma cidade problemática, feia.

Um desses desafios é o problema dos igarapés de plástico, tema abordado em importante trabalho de Michele Lins Aracaty e Silva e Nerine Lúcia Alves de Carvalho, pesquisadoras da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

O trabalho gerou polêmica em evento da Universidade de São Paulo (USP) no ano passado, ocasião em que as duas pesquisadoras expuseram o descaso envolvendo os igarapés de Manaus, um escândalo histórico que remonta ao período de Eduardo Ribeiro.

O trabalho de Michele e Nerine gerou discussão no ENGEMA – Encontro Internacional sobre Gestão Empresarial e Meio Ambiente da FEA/USP – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo com o apoio da FIA – Fundação Instituto de Administração.

Depósitos de lixo

Michele nos permitiu acesso ao conteúdo do maravilhoso trabalho científico em que as duas pesquisadoras enfatizam a transformação dos igarapés, que antes eram elementos naturais essenciais para a vida cotidiana da população, em verdadeiros depósitos de lixo, especialmente de garrafas PET.

Esses cursos d’água, que outrora representavam espaços de sociabilidade e uso coletivo, agora viraram um cenário de abandono e poluição, esgotos a céu aberto, tornando-se obstáculos para o crescimento e o desenvolvimento urbano.

Uma das principais causas desse problema é o descarte inadequado de resíduos sólidos pela população e a ineficiência da gestão pública municipal na coleta e destinação adequada do lixo.

Esse descaso compromete a saúde da população que vive às margens dos igarapés, gera elevados custos para os cofres municipais e impacta negativamente no ecossistema local, ameaçando a biodiversidade e o equilíbrio ambiental.

Manejo de resíduos

O excelente trabalho de Michele e Nerine ressalta a importância da conscientização da sociedade e da mudança de postura em relação ao descarte de resíduos, bem como a implementação de políticas públicas eficazes para lidar com o problema.

A solução para os igarapés de plástico passa pela adoção de práticas sustentáveis de manejo de resíduos, incluindo a reciclagem e a destinação correta dos materiais, o que não só contribuiria para a preservação do meio ambiente, mas também para a geração de emprego e renda verde.

O trabalho científico enfoca o problema dos igarapés de plástico dentro de um contexto mais amplo de sustentabilidade e desenvolvimento racional, em paz e em parceria com a natureza.

Objetivos da ONU

O trabalho de Michele e Nerine destaca a relevância dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, particularmente aqueles referentes à vida aquática e cidades sustentáveis, como guias para orientar ações em prol da preservação dos recursos naturais e da melhoria da qualidade de vida nas áreas urbanas.

As pesquisadoras chamam a atenção para a urgência de se abordar o problema dos igarapés de plástico como uma questão local, mas, evidentemente, também como parte de um desafio global de encarar os impactos da atividade humana sobre o meio ambiente.

É preciso que seja assim. A partir de uma abordagem integrada e colaborativa entre governo, sociedade civil e setor privado, será possível encontrar soluções sustentáveis para garantir um futuro mais saudável e próspero para Manaus, na certeza de dias melhores quanto ao porvir.

Atenção, pré-candidatos

Entendo que os atuais pré-candidatos à Prefeitura de Manaus, para o bem de suas intenções, qualidade e credibilidade dos seus programas de governo, deveriam promover, neste momento, um grande seminário com a presença de Michele e Nerine para ouvirem as cientistas sobre seu belíssimo trabalho apresentado no ENGEMA da FEA/USP de 2023.

O seminário seria mais que oportuno para os senhores pré-candidatos compreenderem que os igarapés não podem ser avaliados como sinônimos de lugar atrasado, precisando desaparecer para possibilitar o surgimento de uma cidade pretensamente moderna, mas, na verdade, grotesca e subdesenvolvida.

Manaus, um ponto focal no coração da Amazônia brasileira, é uma cidade que encapsula a complexidade do desenvolvimento industrial em uma região rica em biodiversidade.

Desde a implementação do Modelo Zona Franca de Manaus em 1967, a cidade experimentou um crescimento econômico significativo, impulsionado principalmente pelo Polo Industrial. Mas, esse desenvolvimento tem um sério gargalo: a má gestão dos resíduos sólidos.

O modelo ZFM, nos idos da década de 60, foi concebido como uma boa iniciativa para descentralizar a industrialização no Brasil, aproveitando as vastas oportunidades oferecidas pela Amazônia.

Ao longo dos anos, o modelo demonstrou sua resiliência, enfrentando crises econômicas e desafios políticos. Hoje, é um pilar essencial da economia local, contribuindo significativamente para o Produto Interno Bruto (PIB) do Amazonas e gerando empregos em uma escala impressionante.

Mas, conforme Michele e Nerine, é fato que o crescimento industrial e populacional associado à ZFM trouxe consigo uma série de desafios urbanos. O aumento rápido da população, com a forte migração para Manaus em busca de oportunidades de emprego e melhores condições de vida, resultou em uma expansão desordenada da cidade para suas zonas periféricas.

Tais áreas muitas vezes carecem de infraestrutura básica, como transporte público, saneamento e habitação adequada.

Igarapés são obstáculos?

É notório que os igarapés, elementos naturais distintivos da paisagem amazônica, desempenharam nobre papel na vida cotidiana de Manaus, oferecendo recursos naturais, meios de transporte e espaços de sociabilidade. Contudo, à medida que a cidade cresceu, eles se tornaram alvos de intervenção urbana, passaram a ser vistos como problemas à modernização.

Explicam Michele e Nerine que a relação entre a cidade e seus igarapés é marcada por conflitos, exemplificados pela poluição e ocupação desordenada de suas margens.

Apesar dos esforços das autoridades municipais para lidar com o problema dos resíduos sólidos, incluindo a coleta diária de lixo urbano e o direcionamento adequado para aterros sanitários, o volume de lixo descartado nos igarapés continua sendo uma preocupação persistente.

Ocupação desordenada

A falta de conscientização da população, juntamente com a ocupação desordenada das áreas ribeirinhas, torna a tarefa de manter os igarapés limpos e saudáveis um desafio constante.

A complexa rede de saneamento básico da cidade tem suas próprias dificuldades, resultando na gestão inadequada dos resíduos. O problema se agrava quando consideramos a rápida expansão urbana de Manaus, que sobrecarrega ainda mais os sistemas existentes.

Por fim, o trabalho de Michele e Nerine aponta que o caso de Manaus é igual aos de muitas cidades em desenvolvimento, onde o crescimento econômico nem sempre é acompanhado por uma gestão adequada dos recursos naturais e urbanos.

Enquanto a ZFM impulsiona a economia regional, os desafios envolvendo a urbanização desordenada e a poluição ambiental destacam a necessidade de abordagens integradas para o desenvolvimento sustentável.

Para enfrentar esses desafios, faz-se necessário unir e mobilizar as partes interessadas, governo, setor privado, sociedade civil e população, na implementação de iniciativas que melhorem a gestão dos resíduos sólidos, que promovam práticas sustentáveis e protejam os recursos naturais da região.

Só assim, por meio de uma abordagem colaborativa e orientada para o futuro, Manaus alcançará um equilíbrio entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental, afirmam Michele e Nerine.


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