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Contra a Idolatria

Por: Robério Braga

Membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), advogado e ex-secretário de Cultura do Amazonas

Lindalva Cruz

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Rosa Firmina Fontenelle da Silva Cruz e Raimundo Rodrigues Cruz residiam em sobrado na Avenida de Joaquim Nabuco, n.º 153, em Manaus, quando do nascimento de Lindalva, a menina que seria prodígio na música e teria vida longa de artista, intérprete e compositora. Era, na verdade, a casa dos avós de Miguel Emanuel e Lindalva.

Rosa Firmina se mudara para Manaus com a família em 1891, acompanhada pelos pais João Antônio da Silva e Firmina Josephina Fontenelle da Silva, chegados do Piauí com Arya, Jonas, Raimundo Nonnato, Isabel Firmina, Nahim, Maria Firmina, Joel e Edwiges.

Como era comum para as mulheres de classe média da época, Rosa exerceu o magistério em Manaus durante anos, mas conseguiu acompanhar a trajetória da filha, tendo sido a sua principal incentivadora, mesmo com graves dificuldades financeiras. Logo aos seis anos Lindalva foi estudar piano estimulada pela mãe e avós, seguindo depois para o Externato “Joaquim Franco” sob a orientação de Nini Jardim e José Mauro Oliveira, os principais professores de música da época.

Ainda menina tocava em sessões de cinema mudo nos cines Polytheama e Odeon, de propriedade dos tios Jonas e Raimundo Fontenelle da Silva. Depois a mãe conseguiu que se apresentasse aos 10 anos em evento escolar do Teatro Amazonas e no Cine-Theatro Alcazar, mas a crise econômica, a ausência do pai e a Grande Guerra Mundial agravaram ainda mais a precária situação da família, como sucedeu com a economia local que afundava.

Na vizinhança da residência de Rosa e Lindalva estava a padaria “Frankfort”, de propriedade de Joaquim Marques Ribeiro, por cuja calçada as meninas-amigas Lindalva Cruz, Sebastiana dos Santos Pereira e Isabel Vitória de Mattos Pereira passeavam de mãos dadas e sonhavam com o futuro.

Por empenho de Rosa e apoio de amigos e mais tarde do próprio governador Álvaro Maia, Lindalva seguiu viagem para estudar piano no Conservatório Nacional de Música onde se formou, deu aulas e fez sucesso, sem deixar de reconhecer o sacrifício da mãe e a ajuda de amigos. Anos mais tarde retornou a Manaus, organizou o Instituto Amazonense de Música com Francisca das Chagas Serejo e Magnólia Maria Vieira quando a cidade respirava música, era embalada ao som de pianos e violinos, ouvia declamação e discursos acadêmicos e se reunia para leituras eruditas.

Aprovada para professora do Conservatório Nacional, no Rio de Janeiro, Lindalva voltou a residir na capital da República e se apresentou no Teatro Amazonas somente em 26 de maio de 1990 para seu primeiro e verdadeiro concerto de arte, levada ao palco pelas mãos da professora Sebastiana dos Santos Pereira Braga – a antiga colega de infância e presidente da Fundação Lourenço Braga -, que cuidou de organizar o recital e comandar a festa com carinho especial.

Foi ocasião de deslumbramento. O público vibrava de emoção a cada música que Lindalva se punha a executar com elegância ao piano. Jovens alunos das várias escolas de arte assistiam embevecidos. Antigos amigos, mestres e ex-alunos da concertista vibravam. Flores chegavam ao palco por mãos de crianças, às braçadas, para homenagear a mestra e agradecer por sua brilhante trajetória.

Ao final, cumprimentos no hall, abraços e afagos, elogios e agradecimentos, tudo para enaltecer mais do que um concerto erudito e popular ao mesmo tempo, muito mais para reconhecer e honrar o exemplo de dedicação a arte e de tenacidade na vida que Lindalva Cruz representa para o Amazonas.


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