Lábrea e Apuí no centro das fraudes de créditos de carbono

Polícia Federal revela como era o esquema no Sul do Amazonas

Investigações impactam a Faria Lima, em São Paulo

Fábio Rodrigues
Especial para o ÚNICO

Brasília (ÚNICO) – A Polícia Federal desmantelou um esquema de créditos de carbono que era operado a partir dos municípios de Lábrea e Apuí, no Sul do Amazonas, que envolvia registros falsos de fazendas em terras indígenas e da União, propinas a servidores públicos e fraudes em cartórios.

Tudo isso para colocar no mercado créditos de carbono que eram adquiridos por quantias milionárias por multinacionais e fundos de investimentos sediados na avenida Faria Lima, maior centro financeiro do país, em São Paulo.

Operação Greenwashing

Deflagrada pela Polícia Federal no dia 5 de junho, a Operação Greenwashing, resultou na prisão de empresários acusados de apropriação ilegal de 337 mil hectares de terras e extração ilegal de madeira, movimentando mais de R$ 1,1 bilhão.

O empresário Ricardo Stoppe Júnior, autodenominado “Rei do Carbono”, está no centro das investigações.

Stoppe Júnior é acusado de registrar áreas de preservação e terras indígenas como propriedades privadas, utilizando documentos falsos e subornando servidores públicos na região de Lábrea e de Apuí.

Corrupção e documentos falsos

O Portal Metrópoles divulgou nesta terça (18) que teve acesso a detalhes da investigação. “Ela mostra como ao longo de mais de uma década, o grupo corrompeu servidores e usou documentos falsos em processos judiciais para registrar fazendas sobre áreas de preservação da União e até mesmo territórios indígenas na região de Lábrea”, diz o texto.

Além disso, áudios mostram como eram pagas as propinas em cartórios para “regularizar” as terras.

Segundo a PF, o empresário Ricardo Stoppe “começou em uma área de 133 mil hectares preservada”. na região do rio Ituxi, que banha Lábrea. Ituxi é também o nome da empresa dele: Fortaleza Ituxi.

Os investigadores identificaram um esquema segundo o qual ela foi registrada sobre terras da União e na terra indígena Kaxarari, que abrange os municípios de Lábrea, no Amazonas, e Porto Velho, em Rondônia.

A corrupção em cartórios e a apresentação de documentos falsos que acabaram avalizados pela Justiça fez com que parte dessas terras chegasse a dobrar de tamanho, segundo a investigação.

São matrículas que foram abertas em cartório com a data de aquisição do terreno nos anos 80, mas que, logo após o registro, foram transferidas a pessoas ligadas a Stoppe Junior.

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Gravações mostram propina

Na investigação, não faltam diálogos sobre esses esquemas. Em uma das conversas, o empresário menciona propinas a uma oficial de cartório de Apuí, na região amazônica.
“Bem, os 50 mil não era nem para aquilo, era 150 para o negócio do Alvorada, bem, entendeu? Que a doutora do Apuí lá está no pé, que fez a matrícula sem aquilo e não podia ter feito. Entendeu? Era para aquilo lá, eu não consegui até agora”, diz uma das mensagens. Em outra conversa, a PF identificou um suposto intermediário de Stoppe Junior dizendo que “dinheiro resolve” em relação a registros na cidade de Lábrea (AM).

Somente ao marido da oficial de cartório de Apuí, citada no diálogo sobre a suposta propina, a Ituxi Participações, uma das empresas de Stoppe Junior, transferiu R$ 700 mil.

A transferência bate com uma das conversas obtidas pela PF sobre pagamentos a Sâmara Silva, a oficial do cartório de Apuí (AM): “Bem, essa conta aí desse contrato, nós vamos ter que fazer setecentos mil. É da Samara , tá?”, disse o empresário em um dos áudios.

Influência na polícia

Nas conversas, foi identificada a influência do empresário na região, inclusive sobre policiais. Outro áudio menciona que ele “destinou” uma viatura policial em Rondônia para procurar a própria filha que estava desaparecida durante uma paralisação de caminhoneiros.

Em outros diálogos, cita acordos e pagamentos a policiais militares de alta patente para fazer operações na Fazenda Ituxi e favorecer seus interesses.

De acordo com a PF, o braço direito de Stoppe Junior chegou a listar, em uma conversa, uma série de números telefônicos que, segundo ele, estariam grampeados em uma investigação do Ministério Público Estadual do Amazonas sobre as atividades do grupo.

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Empresas não são investigadas

Segundo a PF, as empresas e gestoras financeiras que compraram os créditos de carbono não estão sendo investigadas, pois são consideradas de boa-fé, mas a participação no esquema mostra como os criminosos conseguiram se apresentar como empresários sustentáveis.

Multinacionais

O fundo AZ Quest Luna, gerido pela AZ Quest e administrado pela XP Investimentos, e multinacionais como Gol, Boeing e Nestlé compraram créditos lastreados em projetos de Stoppe Junior. A Boeing declarou estar monitorando a situação, enquanto outras empresas não se manifestaram.


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