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 O caso Eneida

Por: Robério Braga

Membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), advogado e ex-secretário de Cultura do Amazonas

Homem do Norte

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Corria o ano de 1975 quando fui instado pelo prefeito Jorge Teixeira a representar o Munícipio de Manaus, como Secretário Extraordinário da Prefeitura, em evento internacional realizado em Salvador para discutir inovações e processos históricos dos museus brasileiros, especialmente os de artes e afins.

A sede do conclave foi o Museu de Arte Sacra da Bahia, à época dirigido pelo notável Valentin Calderón, e era verdadeiro relicário de coleções e exemplo de organização moderna com exposição clássica, reunindo a nata de especialistas na área.

Sem titubear, e por entender que os demais representantes brasileiros e estrangeiros pouco ou quase nada saberiam sobre as coleções de Manaus, precisamente por não estarem organizadas de forma adequada e cientificamente apresentadas, elaborei exposição que historiou o processo de composição de tais acervos, referindo-me aos museus do Índio, Numismática, Pinacoteca e redescobrindo as referências sobre o Museu Botânico do Amazonas.

De tal comunicação, considerada relevante para os demais participantes, fui levado a participar de reunião sobre museologia no Recife, e, de forma gratificante, a conhecer o sociólogo Gilberto Freyre com quem travei boa conversa. Fi-lo saber que era filho de pernambucana da Piedade com soteropolitano, e, de logo, os laços e abraços foram apertados. No dia seguinte, enquanto estava em reunião de trabalho na Pinacoteca, recebi um chamado para comparecer ao Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais e conhecer o Museu do Homem do Norte. Para maior surpresa, tive como guia particular o próprio mestre de Apipucos e seu filho Fernando.

Conversa vai, conversa vem, disse-me ele, de chofre, que tinha a intenção de instalar uma representação do Instituto “lá pela Amazônia” e talvez eu pudesse participar dessa empreitada. O desafio era criar o Museu do Homem do Norte. Com toda a audácia, disse-lhe que sim e, retornando a capital amazonense, cuidei de tratativas objetivas que, na ocasião, não prosperaram. Mas ficou a amizade e a relação próxima. Poucos anos depois, estando José Braga (mestre e irmão), como secretário de Planejamento do Estado, reunimos forças e relações políticas com o vice-governador Paulo Nery e o governador José Lindoso, e conseguimos articular a representação do Instituto na capital amazonense.

Mais tarde, graças ao prefeito Amazonino Mendes, teve sede na Av. Sete de Setembro, proximidades do Canto do Quintela, onde começou o Museu do Homem do Norte como desejava o mestre. Pouco depois Gilberto assumiu de vez o encantamento partindo para outros planos. Emocionado, representei o Estado na Missa de Sétimo Dia.

Ficaram o Museu e a representação da Fundação Joaquim Nabuco para a Amazônia, cuja criação lideramos (José e eu), cabendo a sempre competente, dedicada e inteligente Veralúcia Ferreira de Souza todo o trabalho técnico e científico para o Museu. Foi esse mesmo museu que depois perambulou e quase foi extraviado, e que consegui salvar e instalar, definitivamente, no Centro Cultural dos Povos da Amazônia quando secretário de Cultura. É detentor de belíssima coleção de peças que bem caracterizam a região e o homem amazônico, e se destaca pela plumária selecionada por Noel Nutels, o grande.

Contam-se, agora, 38 anos de instalação do Museu do Homem do Norte, mas, em verdade, as primeiras tratativas sobre sua existência vem de antes como demonstrado, ainda que esse primeiro tempo tenha ficado em surdina e foi sendo gestado silenciosamente.

Gilberto Freyre deve estar acompanhando a preservação desse importante acervo e fruto do seu ideal.

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