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2 de julho de 2022
Geração de Emprego e renda na base da Pirâmide BOP

Coluna:

Por: Michele Lins Aracaty e Silva

Economista, Doutora em Desenvolvimento Regional, Docente do Departamento de Economia da UFAM, ex-vice-presidente do CORECON-AM.

Geração de Emprego e renda na base da Pirâmide BOP

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Michele Lins Aracaty e Silva

Mesmo com as inovações tecnológicas e avanços do capitalismo diversas nações em todos os continentes ainda lutam para reduzir os indicadores de pobreza e melhorar a vida da população que se encontra na base da pirâmide econômica.
A base da pirâmide econômica BOP (BOP, a sigla em inglês, significa Bottom of the Pyramid), consiste na população pertencente às classes D e E, e que sobrevivem com menos de 2 dólares por dia.
Sabemos que a erradicação da pobreza constitui ao mesmo tempo um desafio e um compromisso mundial e está presente nos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (os 17 ODs’s da ONU) ocupando a primeira posição, o ODS 1 – Erradicação da pobreza – com o compromisso de acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares.
Acerca da pobreza, os números são assustadores e constituem um contingente de 732 milhões de pessoas (em situação de pobreza, pobreza extrema e pobreza multidimensional), dados da ONU que antecedem a pandemia de Covid-19.
A discussão acerca da Pirâmide BOP bem como a preocupação em gerar emprego e renda na base da pirâmide deu-se com a publicação da obra “A Riqueza na Base da Pirâmide: erradicando a pobreza com o lucro” dos autores PHAHALAD, C. K. e HART, S. L, publicada em 2002, o qual alertavam o mundo bem como as grandes corporações, leia-se as empresas multinacionais, da necessidade destas de contribuírem de alguma forma para reduzir as mazelas da pobreza.
Ao defenderem a erradicação da pobreza por meio de lucros, os autores sugerem que uma situação “ganha-ganha” seria possível para as multinacionais que passassem a considerar as quatro bilhões de pessoas mais pobres do mundo como consumidores potenciais dos seus produtos. Nesta condição, segundo os estudiosos, seria possível a obtenção simultânea de lucros e erradicação da pobreza.
É fato que o mercado na base da pirâmide é monetariamente pequeno para ser altamente lucrativo às multinacionais, conforme a proposta inicial. No entanto, segundo os autores, o setor privado pode atuar de forma a aliviar a pobreza ao visualizar a população pobre como “produtores”, enfatizando a compra, ao invés, da venda.
Como seria esse processo? a população na base da pirâmide pode produzir e fomentar o seu próprio consumo desde que os produtos tenham preços acessíveis e tenham qualidade. Além disso, os potenciais produtos a serem demandados podem ser fracionados para que se adequem às rendas destas famílias.
Um dos exemplos mais bem sucedido vem da Unilever, pioneira nas ações no segmento BOP, sendo referência mundial, tanto por sua extensão global, como por suas práticas sustentáveis. A empresa implementou uma ação bem-sucedida e inspiradora na Índia, através da promoção de saches descartáveis de shampoo para pessoas muito pobres.
O que faz da iniciativa da multinacional na Índia uma referência é que não focaram apenas no ato da venda e sim nas etapas anteriores, na produção. Os próprios moradores das comunidades vulneráveis foram os responsáveis pela fabricação do shampoo em forma de sachê destinados ao consumo dos seus vizinhos, ou seja, uma iniciativa para fomentar a empregabilidade, a geração de renda local e possibilitar o consumo de um produto essencial para a higiene dessa população que se encontra na base da pirâmide, “uma forma de aproximar a produção do consumo”.
A proposta da empresa no que tange a implementação de suas ações em comunidades vulneráveis foi inspirada por Henry Ford, que dizia que “mesmo se ninguém comprasse os carros produzidos pela Ford, seus empregados os comprariam, porque recebiam bons salários trabalhando em suas fábricas”, “só deste modo, produzindo, gerando renda local e satisfazendo o consumo simultaneamente, é possível atrelar o processo à economia da comunidade”, Henry Ford.
Desde 2002, após o lançamento da obra, percebemos claramente que o conceito inicial de investimento na “base da pirâmide”, fundamentado exclusivamente na atuação de multinacionais através da venda de produtos em larga escala, foi, desde então, mudado ou adaptado à realidade e objetivo de cada empresa, e ainda se configura num cenário em construção.
É inegável que ainda temos mais perguntas do que respostas acerca do sucesso das ações das empresas junto à base da pirâmide BOP e tem-se muita preocupação no que tange ao alcance do desenvolvimento visto que a necessidade de gerar consumo em grandes quantidades e escalabilidade acarreta impacto ao meio ambiente e retardo no alcance do tripé da sustentabilidade (triple bottom line: social, econômico e ambiental).
Mesmo que estas ações sejam pontuais e os resultados sejam singelos o que deve ficar claro para cada um de nós como cidadãos, empresas privadas, governo e sociedade é a necessidade urgente de se buscar alternativas para reduzir os impactos da pobreza sobre a sociedade que se encontra na base da pirâmide BOP atendendo aos anseios da sustentabilidade.

Michele Lins Aracaty e Silva, Economista, Doutora em Desenvolvimento Regional, Docente do Departamento de Economia da UFAM, ex-vice-presidente do CORECON-AM.

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