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Floresta Rica, população pobre e vulnerável

Coluna:

Por: Michele Lins Aracaty e Silva

Economista, Doutora em Desenvolvimento Regional, Docente do Departamento de Economia da UFAM, ex-vice-presidente do CORECON-AM.

Floresta Rica, população pobre e vulnerável

Os superlativos atrelados à riqueza da biodiversidade amazônica em hipótese alguma podem sem usados para qualquer outra região do planeta. A Amazônia é um ecossistema único constituído pela floresta tropical úmida (44% do global), está situada em aproximadamente 40% do território da América do Sul e abrange em nove países.
Cabe à bacia amazônica a prerrogativa de gerar entre 16% e 20% da água doce do planeta, responder por 25% da biodiversidade terrestre, ser responsável pelo maior quantitativo de espécies de peixes em relação a qualquer outro sistema fluvial. É moradia de pelo menos 60.000 espécies de plantas, mamíferos, répteis, invertebrados, anfíbios, peixes e pássaros. Embora a Amazônia cubra somente 1% da superfície do planeta, é o lar de 10% de todas as espécies de vida selvagem que conhecemos.
Apesar da inquestionável riqueza natural, os indicadores que mensuram a vulnerabilidade socioeconômica dos habitantes desta região assemelham-se aos de países africanos. Avanços foram observados nos últimos anos, mas o abismo em relação às demais regiões brasileiras ainda é expressivo.
Em relação aos indicadores regionais, como o Índice de Vulnerabilidade Social regional, mensurado pelo IPEA no ano de 2019, alcançamos uma classificação baixa evoluindo gradativamente nos últimos levantamentos e nas três dimensões avaliadas: Infraestrutura Urbana, Capital Humano e Renda e Trabalho. Quanto ao indicador de IDHM, no ano de 2019, alcançamos a faixa de classificação de ALTO, também fruto de crescimento gradativo.
Em relação à pobreza e pobreza extrema, temos que: 11,8% da população da região encontra-se em situação de pobreza. Já em relação à pobreza extrema o percentual encontra-se no patamar de variação entre 26,5% a 47,8%, de acordo com o estado.
Em se tratando de Renda Per Capita, a Região Norte apresenta uma Renda Média (per capita) inferior à renda nacional, tanto em relação aos 40% mais pobres bem como em relação aos 10% mais ricos, o que compromete o poder de compra.
Em relação ao Índice de Gini, que mensura a concentração de renda, em função da diferença dos rendimentos entre os mais pobres e os mais ricos. No caso, para a Região Norte, o Índice de Gini é de 0,6237, considerado muito elevado, o que torna a região uma das mais desiguais do país.
Quanto aos números da Fome, de acordo com dados da ONU apresentados no relatório SOFI (2021): 71,6% das famílias residentes na Região Norte do Brasil sofrem com a insegurança alimentar e a fome extrema faz parte do cotidiano de 25,7% das famílias (muito acima da média nacional).
Recentemente, outro dado passou a ser objeto de análise por parte dos economistas e pesquisadores regionais: na Região Norte do país o número de pessoas dependentes do Auxílio Brasil supera o quantitativo de pessoas empregadas com carteira assinada. Ou seja, temos uma dependência significativa do principal programa de transferência de renda. Ressaltamos ainda que, o número de desempregados é muito elevado e a informalidade constitui um fator preocupante.
Essa população que enfrenta cotidianamente a fome e que se encontram em condição de pobreza ou pobreza extrema concentra-se em territórios de alta vulnerabilidade social os quais apresentam menor cobertura de abastecimento de água potável, insuficiente ou inexistente sistema de esgotamento sanitário, ausência de coleta de lixo, população com renda per capita inferior a meio salário mínimo, elevado índice de mortalidade infantil, número expressivo de crianças e adolescentes que não frequentam a escola, elevado número de mulheres jovens com filhos, elevado percentual de mulheres responsáveis pela renda familiar e chefes de família, elevada taxa de analfabetismo e um número significativo de adultos que não trabalham e nem estudam.
A riqueza da biodiversidade Amazônica é inquestionável, mas as condições em que vivem a população nela residente são lamentáveis e carece de um olhar mais sensível. Necessitamos de uma política de desenvolvimento regional bem direcionada e com objetivos claros, de forma que possamos alavancar socioeconomicamente a região, que contribua para o desenvolvimento endógeno com base nas potencialidades regionais e que melhore as condições de vida da população que nela habita.
Olhar, pesquisar, dialogar, discutir e refletir sobre a Amazônia é investir em seu futuro, é pensar em condições que possibilitem caminhos que possam contribuir para o Economia da Amazônia (Economia da Floresta), e assim, enfrentar os dilemas e desafios que se projetam sobre a região frente aos desafios do mundo globalizado que impactam sobre a biodiversidade, a cultura e os povos da floresta.

Esse texto não reflete, necessariamente a opinião do Único

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