Lourenço Braga
Tanto faz !

Por: Lourenço Braga

Advogado, professor, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), ex-secretário de educação e ex-reitor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

FALANDO COM JOSÉ

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Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas

Na conversa anterior, tentei não ser rigoroso com a cronologia dos fatos e, claro, desde então fui ciente de que muito precisaria para pelo menos me aproximar da justiça com a beleza e a riqueza de tua vida, como irmão, mestre e exemplo. Fui saltando sobre épocas, períodos e registros que me vieram à mente aos borbotões, jorrando sentimentos e lembranças, tudo para não cansar tanto os poucos que me concedem o privilégio da leitura. Mas deixei registrado que pelo menos uma nova tentativa ousaria fazer, o que justifica este retorno.
Bem jovem, foste trabalhar na firma comercial S. Monteiro, ali na Quintino Bocaiuva, pouco depois do prédio da Associação Comercial, que vendia móveis e aparelhos que hoje chamamos de eletrodomésticos, como fogão e geladeira, muitos dos quais ainda movidos a querosene – o mesmo que eu comprava quase todos os dias na taberna do “seu” Olímpio para fazer funcionar a lamparina dos tempos em que moramos na avenida Ayrão e que nos enchia de fuligem preta as narinas quando nos obrigavam a preparar estudos durante a noite. Começava o milagre da energia fornecida pela Companhia de Eletricidade de Manaus, a nossa CEM que chegou a ser dirigida pelo inesquecível mestre e amigo Aderson Dutra.
Foi nessa época que, com o primeiro ou o segundo salário, me presenteaste, no aniversário, com uma bicicleta Caloi que chegava ao mercado para rivalizar com a tradicional Monark que tinha freio no próprio pedal. Não avalias a alegria.
Não te demoraste muito por ali, que algumas das tarefas que destinavam aos empregados não eram compatíveis com tua formação e tua capacidade de fazer e de criar, e foste trabalhar no London Bank, na rua Guilherme Moreira, lá pelas bandas do escritório do J. A. Leite em cujos navios nosso comandante trabalhava viajando pelos rios Purus ou Juruá, levando daqui mercadorias e trazendo principalmente castanha e borracha que abarrotavam os porões do “Industrial”, do “Ayapuá” ou da lancha “Minas Gerais”, transbordando nas alvarengas que, algumas vezes, eram até maiores que os navios que as conduziam.
Por esse tempo, também foste pracista de medicamentos, igual a João e a Onety, grande amigo, fazendo propaganda de remédios junto aos médicos da Cidade, e eras servidor, então, da firma distribuidora do Santoro, cujo escritório ficava ali na Sete de Setembro, nos altos da farmácia do Xavier. Também cuidavas de mostrar tua vocação para a escrita e para o rigor com a correção das palavras, trabalhando como redator do jornal A Crítica ou como apresentador de programa noticioso ou esportivo na Radio Baré, do Jayme Rebelo, do Flávio de Souza, onde nem era tão confiável a segurança com os microfones que, aqui e ali, entravam em curto, davam choque nas mãos de quem os segurava, mas não abdicavas das paixões, dentre elas o violino, de encanto singular.
A forte contribuição genética de Sebastiana, que em ti se expressa até na aparência física, no sorriso e no trato, há de ter falado mais alto quando resolveste ingressar no magistério, compondo a congregação de nosso Instituto de Educação do Amazonas, que Lila Borges de Sá dirigia com amor inigualável e onde te fizeste colega de Garcytilzo, professor de Ciências, João Crisóstomo, de Português, Evanir, de Francês, Lúcio Cavalcanti, de Latim, Mercedes, Diofanto, Maria Augusta, Aristóteles e João Braga, de Matemática, Benicio Leão e Mirtes Trigueiro, de Geografia, Orígenes Martins, de Pedagogia e Didática, Cleomar Feitosa e Elvira Borges, de Canto Orfeônico, doutor Benedito, de Puericultura, Alfredo Fernandes, de Desenho, dentre tantos.
Nesse tempo, sem sequer nos conhecermos Raquel e eu fomos teus alunos, no 1º ano do curso Pedagógico, e por ousadia singular, publicaste teu primeiro livro, “Instruções Ortográficas”, cuidando de tema desafiador para a maioria dos estudantes nem sempre aptos a usar o acento grave para indicar a contração da preposição com o artigo. Minha sala de aula, então, era a primeira do térreo do prédio do IEA – onde durante o dia funcionava o Grupo Escolar Princesa Isabel, bem em frente ao laboratório em que atuava Nazaré Xavier, agora experimentando a beleza dos 90 anos, que foi diretora da escola, tanto quanto Neuza Ferreira – e a Companhia dirigida por Jorge Baird não conseguia garantir eletricidade frequente para toda a cidade, motivo pelo qual em alguma noite tua aula foi ministrada com o apoio de velas que os alunos tínhamos sobre nossas carteiras, além das duas que alguém colocara sobre tua mesa.
Eras líder ali, o que não constitui novidade até hoje, e não abdicavas de ser irrequieto e criativo, tudo que te levou a comandar a participação do IEA, anos seguidos, no Festival Folclórico do Amazonas, criado por Mário Ypiranga Monteiro nos idos de 1947, na Cachoeirinha, ampliado por Bianor Garcia e que atraía a grande palco instalado no gramado do campo do estádio General Osório, em frente ao que hoje é o Colégio Militar de Manaus, danças ensaiadas por alunos de quase todos os colégios de Manaus. Levaste para lá o “Jacundá”, o “Imperial”, o “Tipiti”, ao que lembro, e dois campeonatos se seguiram.
Foste ser Diretor de Administração da Secretaria de Agricultura do Estado, que tinha como titular Albérico Antunes de Oliveira, pastor evangélico e presidente da Fundação Amazônia, esposo de minha professora Bety, de Artes Manuais, no Colégio Estadual, e ali desenvolveste, ou até descobriste, vocação singular para a Administração. Foi onde tiveste o privilégio de conhecer o grande Vivaldo Barbosa, filósofo, sociólogo, antropólogo, formado e pós graduado na escola da vida, invejável guru.
Dali saíste para dirigir o Departamento de Administração e Serviço Público do Amazonas, que funcionava em duas salas do edifício Rio Branco, prédio que abrigava a Secretaria de Justiça, a mais antiga. Era o segundo governo de Plinio Ramos Coelho, líder do trabalhismo que Lourenço, o pai, ajudara a criar para o Brasil pouco mais de 20 anos antes.
Permaneceste no cargo quando Arthur Reis assumiu o governo e não te conformaste com a pequenez da estrutura organizacional que deveria cuidar da administração propriamente dita do Estado. E te dedicaste a criar, com o apoio necessário, todas as condições para a conformação legal, a fiscalização e o controle dos atos e da gestão administrativa.
Era preciso formar e recebeste autorização para inscrever em cursos da Escola Brasileira de Administração Pública, da Fundação Getúlio Vargas, de onde era professor o governador Arthur, servidores estaduais selecionados regularmente dentre tantos, para construir os passos primeiros da profissionalização. Ali estive, por mérito, e fomos todos para a EBAP imagino que com o mesmo nervosismo com que o caboclo chega pela vez primeira à Capital. Marina, Mendonça, Dulce, Alonso, Sérvio Túlio, Edith, Crisólita e eu, de entre os 12, cursamos qualificação em administração de pessoal, uns, e em organização & métodos e planejamento, nós outros.
Esse o corpo técnico que se veio juntar a Cláudio Figlioulo, José Batista Vidal Pessoa, Jayme Maués, Moacir Silva, Paulo Afonso, Leorne Frota, Randolpho Bittencourt, José Seráfico, Mário Amorim, Haydée Balbi, Maria Nogueira, que havias convidado para profissionalizar a gestão. E pela primeira vez definiu-se em lei a organização administrativa e em decreto o regimento interno de cada Órgão.
Em esforço gigantesco, conduzidos pela batuta de tua liderança e de teu entusiasmo, fizemos a primeira lei de classificação de cargos deste Estado, a de número 701, de 30 de dezembro de 1965. Pela vez primeira , cada órgão ou entidade passou a ter seu próprio quadro de pessoal fixado em ato próprio do Governo, definidas as quantidades de cada cargo, escalonados todos em classes e em carreiras, com as atribuições especificadas e a qualificação exigida para cada provimento. Em seguida, cuidou-se do enquadramento dos servidores, cujos nomes a sociedade passou a conhecer, de forma inédita, com a publicação do decreto relativo a cada setor. Nada disso havia e o DASPA assumiu alta significação na Administração, centralizando a gestão de pessoal, com os cadastros financeiro (que incluía a conferência das folhas de pagamento a partir de informações encaminhadas pelos demais órgãos, além da confecção das relativas a aposentados e pensionistas) e funcional, mediante registro de todos os atos relacionados a cada servidor, trabalho manual que era realizado utilizando fichas que nós próprios desenhamos (a partir do que aprendemos em O&M) e que permaneceram em uso por décadas, até que, 40 anos depois, numa das vezes que dirigi a Secretaria de Administração, foram tais informações transferidas para os computadores que então já nos eram disponíveis. Lembro que inclusive o sistema de registro de processos e papéis foi elaborado ali, sob a batuta de Marina Dantas, e ainda hoje vejo sendo usadas as capas de processo criadas nos idos de 1966.
Tua visão extraordinária de futuro conduziu à criação da primeira escola de administração pública deste canto do mundo, a nossa ESPEA, que viria a ser dirigida por Maria Justina, que extinguiram depois e que eu tive que recriar duas vezes, aluno que sempre fui de teu entusiasmo.
Terminado o Governo, foste cuidar de fazer o mais belo ponto de encontro da sociedade manauara de então, o restaurante Chapéu de Palha, cujo projeto arquitetônico ficou a cargo de Severiano Porto, com premiação nacional. Depois do “Chapéu”, que Lourenço, o pai, chegou a gerir, criaste um hotel, também em sociedade com Cláudio Figliuolo, mas a instabilidade da Zona Franca acabou por comprometer os dois projetos. Criaste o “Staff”, instituto cuja sede esteve ali na Eduardo Ribeiro, por perto do Teatro Amazonas, e com o qual ministraste cursos e seminários de treinamento, formando e aperfeiçoando servidores públicos e privados nos meandros da arte de administrar. Em duas salas contíguas, montaste o consultório de nossa doutora Ana Maria, pediatra que em verdade preferia a lida do hospital e pronto socorro onde sempre trabalhou.
Retomaste os estudos, fazendo-te colega de Queiroz e de Demasi na Faculdade que depois João e eu dirigimos, onde também lecionaste, e foste cursar mestrado em universidade do Rio de Janeiro, retornando com o título almejado conseguido em exame de cuja banca participou o ex-reitor Aderson Dutra e, voltando ao magistério, vieste ser Secretário de Estado de Planejamento e Coordenação Geral no governo de José Lindoso, mestre de todos nós, catedrático da “Jaqueira” e com quem, aliás, trabalharas no SESC, ministrando aulas de Português ali na rua Henrique Martins, onde conheceste o nobre poeta Elson Farias.
Depois, o Doutorado, as aulas, as palestras, os seminários, os estudos e as publicações sobre Direito Agrário, aqui, em Goiânia ou em Portugal, tudo com brilho igual ao de tua atuação na magistratura trabalhista sob cuja toga tiveste como norte, sempre, a aplicação dos princípios da equidade, da igualdade e do império da lei e onde te foi possível dar seguimento aos ideais de Lourenço, o pai, líder sindical que pagou duro preço por defender a Justiça como arma de equilíbrio entre humanos.
Presidiste a Academia Amazonense de Letras, assim como a de Letras Jurídicas, integras a Academia Brasileira de Letras Jurídicas, no Estado do Rio de Janeiro, e presides o Instituto Geográfico e Histórico, de que tenho a honra de participar, com o mesmo entusiasmo juvenil de tudo que tens feito na encantadora caminhada daqui.
Não te faltaram bençãos e fé para ajudar a fazer de Mateus, primeiro neto, comandante de aeronave responsável por transitar pelos céus deste país conduzindo pessoas, vidas e sonhos semelhantes aos teus.
Juiz, Desembargador Federal, membro do Conselho Nacional da Magistratura, honraste a crença!


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