Lourenço Braga
Conversa com José Braga

Por: Lourenço Braga

Advogado, professor, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), ex-secretário de educação e ex-reitor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

ESQUISITICES II

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Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas

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Dia desses escrevi texto sobre coisas bizarras e fatos excêntricos com que somos obrigados a conviver, seja pelo pouco preparo de alguns, pelo autoritarismo de quem se julga superior aos que o cercam e àqueles com quem “é obrigado” a conviver, desrespeitando-os até mesmo na formação de filas para observância do tratamento prioritário garantido legalmente, seja, ainda, por condenáveis manifestações de esdrúxulo poder dos que retiram de eleições, com ou sem votos impressos, força que não foi nem lhes poderia ter sido atribuída

Recebi retornos importantes, até alguns que demonstraram não ser das companhias aéreas a responsabilidade pela falta de espaço em suas aeronaves para acomodar a chamada bagagem de mão de todos os que adquirem passagem que só tanto lhes permite conduzir, porque alguns passageiros levam consigo malas que extrapolam a medida estabelecida. Isso não deixa de configurar, penso, exemplo do autoritarismo que neste país indígena ficou conhecido como o “sabe com quem está falando”, fundamento das chamadas “carteiradas” de “filhinhos de papai” (ou de mamãe, ou mesmo de vovó) e até de autoridades, como foi o caso de um juiz de direito sobre o qual escrevi não faz muito e de quem nunca mais se teve notícia qualquer, como de vez em quando acontece com “pessoas importantes”.

Pois bem, neste 22 de setembro – fim de semana que antecede o aniversário, a 25, de 134 anos de nascimento de meu comandante Lourenço da Silva Braga, herói que me ensinou o que penso que sei e que me preparou para aprender o que acaso não me tivesse transmitido, exemplo de dignidade, de humildade, de caráter inatacável, de dedicação à família, aos amigos e às crianças todas, conhecidas ou não, com integridade que fazia previsíveis seus atos e reações, até no confuso e esquisito mundo político, sede das vaidades e de coisas que nem sei conceituar – pretendia retomar a crônica da semana última em que falei dos ensinamentos seguros que recebemos no lar que construiu e manteve com Sebastiana por mais de meio século, até quando vencido pela fragilidade física que seus 97 anos lhe impuseram, obrigando-o à viagem de despedida a 10 de mês igual.

Considerando que aqueles a quem amamos verdadeiramente não morrem jamais, como de fato creio, estarei na segunda-feira que chega em encontro espiritual com meu pai, festejando sua data maior e dividindo a alegria suprema do abraço com os anjos que, entoando sons maviosos de trombetas e de harpas, estarão a embalar sonhos de eternidade, vencendo a dor do silêncio que a partida impõe.

Nesta semana obrigo-me a voltar a falar de coisas que não consigo enquadrar com a régua da normalidade, esquisitas, bizarras, estranhas mesmo, mas que fazem parte do cotidiano de pouca ou quase nenhuma serenidade a que nos vemos submetidos lendo, ouvindo ou assistindo aos noticiários de cada dia, mesmo que desconfie que alguns fatos, não por sua natureza, mas por razões outras, permanecem encobertos como as nuvens sobre Manaus na manhã de quarta-feira, cobrindo a cidade com fumaça de forte cheiro ruim, proveniente de queimadas que se espalham no calor deste tempo sobre a floresta ou das criminosas por ação humana que se não consegue evitar talvez porque a força pública continue mais tímida, e até fraca, diante do poder econômico armado, ao que muitos dizem, do lado contrário.

Pois bem, enquanto os que incendeiam nos permitem, digo-me assustado pelo que ontem ouvi em reportagem de rádio local que sempre escuto. No que haveria de ser uma abordagem policial, dessas de que todos necessitamos para a segurança própria e de nossos familiares, um representante da força do Estado, portando arma de fogo que a ele é legítimo ter (mesmo que de quando em vez apareçam iguais em mãos não autorizadas, sem explicação qualquer) fez parar um veículo que tinha a dirigi-lo uma mulher e, em seu interior, um cachorro, além de uma criança, ao que outros já disseram. Instando a motorista à apresentação de documentos que a mostrassem regular com as exigências próprias, o desastrado agente ter-se-ia incomodado com o barulho produzido pelo cão e, do “alto de sua autoridade não canina” (como talvez dissesse o nobilíssimo mestre Valois, de quem permaneço aluno), buscou “restabelecer a ordem” que só em sua visão turva restara perturbada e, pasmem os que me leem, disparou tiro de arma de fogo contra o assustado irracional que, impedido de esboçar qualquer reação, nem uma mordida em seu algoz, teve sua vida ceifada ali mesmo, na rua, diante de sua amedrontada dona. Ao narrar o fato, disse o radialista, tão revoltado quanto eu que o ouvia, que a conduta bizarra conferiu ao “zeloso” policial a condição de “mata-cachorro”.

Aqui do meu canto, fico a imaginar que dessa vez pelo menos não terá sido possível afirmar que o perigoso marginal vítima trocara tiros com a polícia, obrigando à legítima defesa.

Invadindo o âmbito do jocoso, tomo conhecimento de que um douto deputado federal, felizmente não daqui, vem de protocolar, para apreciação de seus dignos pares, projeto de lei que autoriza o Estado a realizar a doação de órgãos de todos os que forem mortos por autoridade policial. Fico a pensar que o autor imagina possível a transferência de propriedade para o poder público do corpo inerte cadavérico a partir de evento morte que agente desse mesmo Poder haja provocado, legitimamente ou não. E com isso transferir ao “novo dono” o direito de dispor dos órgãos que em vida ali funcionaram e o dever de doá-los para a indiscutivelmente nobre missão de ajudar a salvar vidas.

Perdoe-me, caro leitor, mas não consigo ir adiante.


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