Economia do Cuidado e o PIB

Neste Dia das Mães ganha força a reflexão acerca da importância das atividades diárias, invisibilizadas e não remuneradas realizadas pelas mães e o impacto destas sobre o Produto Interno Bruto – PIB em todo o mundo.

As atribuições relacionadas às tarefas domésticas, aos cuidados com a família e com os filhos constituem rotinas pesadas, demandam tempo e esforço e compõem o que chamamos de “Economia do Cuidado”.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho – OIT, “a Economia do Cuidado constitui um conjunto de ações relacionadas aos cuidados para a manutenção da vida de outras pessoas, podendo se remunerado ou não. No âmbito doméstico, geralmente sem pagamento, está conectado aos afazeres da casa e aos cuidados com os filhos e familiares”.

Segundo o Guia Básico de Trabalho Doméstico e de Cuidados do Ministério do Trabalho e Emprego, “o trabalho de cuidado envolve tarefas como: a preparação de alimentos, limpeza, gestão e organização da casa, bem como as atividades de assistência, apoio e auxílio diários para pessoas com diferentes graus de dependência, como bebês e crianças pequenas, pessoas idosas ou pessoas com deficiência e pessoas em situação de vulnerabilidade, quando essas não conseguem, sozinhas, realizar atividades como alimentar-se, caminhar, utilizar o transporte público, fazer compras, realizar sua higiene, etc”.

Como descrito no Marco Conceitual da Política Nacional de Cuidados do Brasil (2023), “o cuidado pode ser definido como um trabalho cotidiano de produção de bens e serviços necessários à sustentação e reprodução da vida humana, da força de trabalho, das sociedades e da economia e à garantia do bem-estar de todas as pessoas”.

Segundo um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea de 2018 que teve como objetivo a avaliação da diferença de tempo gasto por homens e mulheres com as tarefas domésticas e de lazer o resultado foi o seguinte: 91% das mulheres realizam tarefas, ante 55% dos homens. Em horas, elas dedicam 61 horas por semana em atividades não remuneradas (o que equivale a dois dias e meio) com cuidados domésticos. Se essas horas fossem remuneradas representariam 11% do PIB do Brasil.

Outro estudo realizado pela Oxfam de 2023 mostra que em todo o mundo, mulheres e meninas realizam 3/ 4 do trabalho de cuidado necessário para manter as famílias e a sociedade. Se todo esse trabalho fosse remunerado com um salário-mínimo em seus respectivos países, esse montante salarial alcançaria 11 trilhões de dólares por ano equivalente a 15% do PIB global.

Para a ONU mulheres (2024), as disparidades de gênero no trabalho de cuidado não remunerado são um profundo motor de desigualdade, restringindo o tempo das mulheres e meninas e oportunidades para educação, trabalho remunerado decente, vida pública, descanso e lazer.

O valor monetário do trabalho de cuidado não remunerado das mulheres globalmente equivale a três vezes o tamanho da indústria de tecnologia do mundo (ONU Mulheres, 2024).

Para tanto, investir para transformar os sistemas de cuidado é uma vitória tripla: permite que as mulheres recuperem seu tempo, cria empregos no setor de cuidados e aumenta o acesso a serviços de cuidados para aqueles que precisam deles. Estima-se que fechar as lacunas existentes nos serviços de cuidado e expandir programas de trabalho decente criaria quase 300 milhões de empregos até 2035 (ONU Mulheres, 2024).

Em todo o mundo, o trabalho de cuidado continua sendo desvalorizado e mal pago. O processo de transformação demanda mudanças estruturais dentro e fora de casa: “O caminho é longo, cheio de padrões a serem derrubados e isso, bem sabemos, não é nada fácil” (Tsuji, 2023).

Por fim, deixo essa breve reflexão acerca da Economia do Cuidado e um feliz Dia das Mães a todas as mães que dedicam tempo e energia para cuidar com muito amor de todos nós.

MICHELE LINS ARACATY E SILVA, Economista, Doutora em Desenvolvimento Regional, Docente do Departamento de Economia da UFAM, ex-vice-presidente do CORECON-AM.


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