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No ritmo da sabotagem.

Por: João Melo Farias

João Melo Farias Poeta e indigenista.

Cunhã e Payé,Palavras Originárias.

Cunhã e Pajé são duas palavras originadas da língua indígena do tronco cultural tupi e ganharam destaques na mídia folclórica, atualmente, posto que se tornaram ítens dos bumbás Garantido e Caprichoso e representam artisticamente o ápice do Festival Folclórico de Parintins.

Garantido e Caprichoso tem suas origens no nordeste brasileiro, mas após suas criações no início de 1.900, foram incorporando, miscigenado, o bumba meu boi com a cultura indígena regional dando-lhe a conformação atual de boi bumbá: com povos originários (índios), lendas amazônicas, rituais indígenas e figuras típicas regionais, como: o caboclo, o ribeirinho, o juteiro, o castanheiro e …
Em 1.979 Mário Ypiranga, ilustre historiador amazonense, grafa em sua obra “Danças Folclóricos Singulares”, num boi de Manaus, a palavra “EMBIRIÇICA” de origem Tupi, que significa fila. Desde essa época os povos originários já faziam parte do folguedo. Não tinham a importância que tem hoje e eram obrigados a andar em fila (indiana), um atrás do outro para não atrapalhar o caminhar do folguedo pelas ruas de Manaus.

Os bumbás se utilizam das resignificações dessas palavras em suas apresentações e dão-lhes as melhores roupagens folclorizadas como forma de engrandecer suas apresentações.
A palavra cunhã ganhou recentemente uma imensa janela midiática nacional através da participação da moça que se traveste de cunhã poranga do Boi Bumbá Garantido durante o programa BBB/24, da Rede Global.

CUNHÃ significa moça. PORANGA ou PURANGA, bonita, que juntas, literalmente, se traduzem: “MOÇA BONITA”. E não tem outros significados como alguns pseudos conhecedores das línguas indígenas teimam em difundir: corajosa, valente ou guerreira.

PAJÉ é uma derivação da palavra “payé” que significa pai. Com o passar do tempo ganhou os significados de sacerdote, feiticeiro ou líder espiritual de uma comunidade. A importância simbólica do pajé dentro de suas comunidades é de natureza espiritual, pois ele é o elo (homem ou mulher) de ligação do mundo terreno com o plano dos Divinos. Dado sua importância política e cultural a moderna antropologia cunhou-lhe, internacionalmente, o termo “xamã” como sinônimo do ente humano que tem a capacidade de se travestir com o animismo das florestas e com a natureza mágica das cosmologias dos povos originários para ocupar o espaço de líder espiritual.

Mas cunhã poranga e pajé só chegaram até aos nossos dias graças a dois fatores: i) a transmissão oral da língua indígena aos seus descentes entre os povos originários falantes da Língua Tupi, ou Língua Geral da Amazônia, ou ainda o Nheengatu; ii) pela redução linguística imposta pelos missionários sobre os demais povos originários, impondo-lhes o Nheengatu como língua franca.

Em 22 de abril de 1.500 o pessoal que compunha a esquadra de Cabral não tinha dimensão da diversidade linguística e cultural dos povos originários que os recebiam com indescritível curiosidade.
Em seguida, chegaram os Governadores Gerais e suas comitivas. E logo os donos das Sesmarias (terras tomadas dos povos originários) e entregues aos amigos do Rei para que delas dispusessem para prover riquezas à Coroa Portuguesa.
Muito cedo perceberam que a gente Brasil não se entendia por força da diversidade linguística.
Eis então que entra na história a figura do Frei Manoel de Nóbrega, que percebeu o valor da língua indígena como instrumento de catequização e por conseguinte de dominação. Assim, estudou as línguas tupi e Guarani, (linguisticamente próximas), que deram origem ao Tupi/Guarani.

Damos um salto no tempo para falar de 1.915, com a entrada dos missionários Salesianos no alto rio Negro. Escolheram pontos estratégicos para fundar suas missões e internatos. Logo impuseram a Língua Geral como meio de comunicação franca entre os indivíduos de povos diferenciados como: Tukano, Dessana, Baniwa, Arapaço e outros. Irene Pena, hoje com 55 anos de idade, do povo Tukano, conta que quando falava sua língua e as freiras a flagravam recebia o castigo de escovar os dentes com sabão de soda. Era proibido falar sua língua mãe; mas podia e era incentivada a falar a Língua Geral. Assim, com o tempo, o povo originário Baré, que originariamente é do tronco cultural Aruaque, deixou de falar sua língua mãe e passou a falar somente a Língua Geral, ou Nheengatu, traduzida por língua boa ou língua bonita. Eis a gênese da Língua Geral na Amazônia. E foi assim também que se deu a introdução dessa língua nos rios: Tapajós, Abacaxis, Andirá, Madeira e Solimões; daí os sotaques (diferenças) nos falares dessa “língua boa” em cada micro região da Amazônia, que Garantido e Caprichoso de forma folclórica ajudam a preservar.


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