Luiza Simonett
Como ter filhos sem sermos pais? Qual a raiz dos ataques nas escolas

Por: Luiza Simonetti

Advogada, vice-presidente da Comissão Nacional de Direitos das Crianças e Adolescentes do Conselho Federal da OAB, Conselheira na Seccional da OAB AM, presidente da Comissão de Direito de Família e Adoção da OAB-AM, Vice Presidente da Comissão Nacional de Adoção do IBDFAM

Como ter filhos sem sermos pais? Qual a raiz dos ataques nas escolas

crianças

Um adolescente utilizando uma faca causou três vítimas dentro da Escola Adventista em Manaus (AM). Comoção geral, julgamentos. Seria apenas um fato gerador de notícias e atitude a ser condenado pelo olhar superficial da Sociedade de um modo geral. Assim, as redes sociais explodiram com a troca de informações sobre o caso e, muitos desejando estar à frente na divulgação de informações, compartilharam fotos dos envolvidos.

Vamos lembrar que não cabe a ninguém expor e divulgar fotos de adolescentes sob nenhuma justificativa. O artigo 17 do ECA afirma que “o direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais”.

Avaliando a situação convido a uma análise um pouco mais profunda de um fato que não acontece isoladamente e onde podem ser detectadas várias vítimas (incluindo o adolescente com a faca, que entendo deverá responder na forma da Lei).

Essa análise trata-se de um trabalho integrado e amplo de toda a sociedade, mas certamente TEM QUE COMEÇAR DENTRO DE CASA, com o exemplo dos pais e responsáveis!

As instituições de ensino precisam SIM interferir na dinâmica das famílias notadamente disfuncionais, quando o problema de casa chega ao ambiente escolar!

É o momento de avaliar e verificar a raiz de problemas como o Bullying, o excesso de exposição à Internet sem fiscalização parental, o exercício da parentalidade responsável, atenta e participativa e a negação familiar da necessidade de atendimento psicológico ou psiquiátrico de crianças e adolescentes vulneráveis a grandes movimentos extremistas dentro do cyber espaço.

Cuidado com o tempo que seu filho passa jogando videogame e em jogos on line. Leiam sobre o efeito Copycat, quando um individuo já perturbado emocional e psicologicamente, e desjaustado socialmente, imita a ação criminosa de um primeiro elemento. Temos também o Transtorno do Jogo pela Internet, um uso excessivo que atrapalha outras áreas da vida da criança ou adolescente.

Uma dica é observar cadernos, limitar acesso ao computador e redes sociais, saber com quem seus filhos conversam, dialogar com eles sobre o dia a dia da escola. Tudo dá trabalho, mas é obrigação dos pais e responsáveis!

Imagina a soma do Bullying+Chats de Jogos on line como nitroglicerina mental pura. É esse o “dark” espaço, ambientes onde jovens negligenciados pela sociedade se sentem acolhidos e são recrutados por grupos com ideias extremistas e neonazistas que “suprem” o acolhimento e a atenção que deveria ser dados pela família.

Um estudo elaborado pela antropóloga Adriana Dias, células de grupos neonazistas cresceram cerca de 270% no Brasil, entre janeiro de 2019 a maio de 2021. Foi noticiado que tais células nazistas “se espalharam por todas as regiões do país, impulsionadas pelos discursos de ódio e extremistas contra as minorias representativas, amparados pela falta de punição”.

Em artigo opinativo, a advogada criminal Juliana França David reflete que as redes e plataformas digitais são local de extrema facilidade de disseminação das mais variadas ideologias, principalmente de grupos extremistas visando recrutas para a próxima geração. O ódio é um conteúdo de fácil assimilação, principalmente quando é apresentado em um ambiente acolhedor para jovens incompreendidos. “Em sua dimensão mais violenta, estes grupos fomentam e auxiliam ataques como os de Vila Sônia, Suzano, etc. Porém, não raros são os casos em que ativistas progressistas são perseguidos por estes grupos, recebendo dúzias de ataques digitais e ameaças”.

Mas como meu filho tem acesso a isso? Vocês já ouviu a palavra “Discord” em alguma conversa de seu filho? Refiro-me a uma plataforma que permite a criação de “pocket universes” virtuais (ambientes de comunidade auto-contidos). Essa plataforma conecta o usuário a pessoas em todo o planeta de forma altamente interativa e alheia à segurança digital, pois as interações entre os grupos criadas dentro dos servidores espalhados por vários países podem ser deletadas sem deixar rastros dos tais fóruns on-line. Assim, Juliana David chama atenção para a necessidade de “atuação especializada em cibercrimes e organizações extremistas”.

Cuidemos AGORA de nossos filhos para que eles não sejam presa fácil para grupos extremistas. Onde há exercício da responsabilidade parental, atuação convergente entre escola e família, controle do acesso às ferramentas tecnológicas com filtros parentais de conteúdo por idade, não há espaço para interferência de terceiros na formação de nossos filhos.

As crianças e adolescentes são sempre vítimas, estejam na posição em que estiverem são seres em formação sob a responsabilidade de toda a sociedade nos termos do art 227 da Constituição Federal.


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