Chico Buarque – 80 anos

Brasil festeja o seu maior poeta popular

Chico fez história na música brasileira

Juscelino Taketomi
Especial para o ÚNICO

Chico Buarque de Hollanda está prestes a completar 80 anos. É como se ele, com toda a serenidade de um sábio, subisse mais um degrau da sua escada brilhante, construindo sua trajetória ímpar na música e na literatura.

Chico é uma entidade que paira sobre a nossa cultura, uma figura que transcende o tempo e as gerações, um daqueles raros artistas que conseguem falar ao coração de todos nós, de modo simples e profundo. Mestre da língua, quase incomparável nos versos.

Nascido em 19 de junho de 1944, Chico veio ao mundo no Rio de Janeiro, mas logo São Paulo o acolheu, cidade onde o pai, o historiador Sérgio Buarque, foi dirigir o Museu do Ipiranga.

Desde cedo, a vida de Chico foi marcada por um ambiente rico em cultura e intelectualidade. O pequeno Francisco, com apenas cinco anos, já recortava fotos de cantores de rádio, sinalizando uma paixão pela música que só cresceria com o tempo.

A adolescência de Chico foi um laboratório de experiências literárias e musicais. Entre as canções operetas que compunha para as irmãs encenarem e os clássicos franceses, alemães e russos que lia com avidez, a semente do artista multifacetado estava sendo regada.

Com uma juventude marcada por encontros e desencontros, como o episódio de um carro furtado que estampou as manchetes, Chico foi forjando sua sensibilidade única.

Se a arquitetura, curso que iniciou em 1963, lhe deu um olhar especial sobre as cidades, a MPB o abraçou de vez. A explosão não demorou. Chico sabia que seu destino era a música brasileira.

“Pedro Pedreiro” e “Sonho de Carnaval” abriram as portas para um jovem compositor que logo se destacaria em festivais com músicas maravilhosas como “A Banda”, vencedora em 1966, e “Sabiá”, a polêmica vencedora de 1968 ao lado de Tom Jobim.

Ditadura e criatividade

A ditadura militar, iniciada em 1964, foi um período duro, mas também um caldeirão fervente de criatividade e resistência. Chico não apenas foi perseguido, mas enfrentou a censura com inteligência, criando o pseudônimo Julinho da Adelaide para continuar compondo.

Canções como “Apesar de Você” e “Cálice” se tornaram hinos de resistência, denunciando com maestria e sutileza as agruras do regime.

O escritor

Mas Chico não se contentou em ser só um gigante da música. Ele se aventurou na literatura e brilhou intensamente.

“Estorvo” (1991), seu primeiro romance, já mostrava a qualidade literária que se firmaria com “Benjamim” (1995), “Budapeste” (2003) e “Leite Derramado” (2009). Cada livro é uma peça de resistência, um testemunho de sua capacidade de narrar a complexidade da vida com a mesma profundidade de suas canções.

É dessa forma que Chico Buarque de Hollanda chega aos 80 anos como uma estrela cultural. Com suas músicas, nos fez cantar e refletir, nos levou da alegria à melancolia, do protesto à contemplação.

Com seus livros, ele nos convidou a adentrar mundos internos e nos ofereceu novas perspectivas sobre nossa própria existência. Chico é, sem dúvida, um daqueles raros artistas que conseguem nos fazer sentir mais humanos.

Nesta quarta-feira, quando ele apagar as velas do seu bolo de aniversário, estará celebrando uma vida inteira dedicada à arte e à cultura. Chico Buarque, em seus 80 anos, permanece um símbolo vivo do que há de melhor em nossa música e literatura, um eterno jovem de alma inquieta e coração generoso. Obrigado por Carolina, Olê,Olá, Construção e outras pérolas da nossa incrível MPB.

Viva Chico, que sua roda viva continue a girar, inspirando-nos sempre.


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