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Galo custa mais de 250 mil

Por: Juscelino Taketomi

Jornalista, há 28 anos servidor da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam)

Caos urbano

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Manaus é uma cidade bagunçada e desumana

Difícil comemorar algum grande projeto urbano digno de elogios para a cidade de Manaus nos últimos 50 anos. Neste 2024, ano de disputa eleitoral envolvendo Prefeitura e Câmara de Vereadores, vale a pena enfocarmos problemas que atormentam mais de 2,5 milhões de pessoas na capital.

Em primeiro lugar, Manaus possui um Plano Diretor e um Código de Postura que ninguém respeita. Desprovida de planejamento e bom senso estético, a cidade é uma das mais feias, conturbadas e desumanas do país.

Plantada no meio da floresta amazônica, a cidade está longe de ser um exemplo ambiental, sem saneamento, devorada por lixões criminosos e perversa com os pedestres. Seus viadutos contemplam apenas os veículos, sem espaço algum para os pedestres caminharem.

Em Manaus, os lixões espancam a paisagem urbana em desafio às normas ambientais tão preconizadas pela psicodélica onda verde que varre o planeta. Sob o controle do crime organizado, seus bairros são quartéis de imundícies, crimes e comércio ilegal de toda espécie.

Terceira pior cidade

Números da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos apontaram Manaus como a terceira pior cidade do mundo em qualidade do ar em 2023. Durante dois meses, seus hospitais tiveram duro trabalho com pacientes, principalmente idosos, vítimas de um fumaceiro gigantesco e descontrolado.

A tragédia ambiental em 2023 foi irmã da tragédia social de acordo com dados do MapBiomas. A ocupação desordenada em áreas de risco resultou em desastres ambientais absurdos, deslizamentos que agravaram antigos problemas ambientais e sociais com prejuízos humanos lamentáveis.

Mas Manaus, abandonada à própria sorte, de vez em quando é alvo de eventos charmosos em períodos eleitorais, na busca de soluções desesperadas para seus gargalos históricos. Foi o que ocorreu em maio de 2014 com a badalada II Feira e Congresso Internacional de Transporte e Logística (TranspoAmazônia).

Soluções de “faz de conta”

Naquela ocasião, com o patrocínio da Suframa e sob a coordenação do Instituto de Pesquisa em Transportes (Intra), Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e Centro de Logística Urbana do Brasil (Club), os descalabros logísticos da capital foram debatidos acaloradamente.

Representantes de órgãos como Manaustrans participaram do evento juntamente com autoridades do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Problemas de infraestrutura e de planejamento foram diagnosticados e soluções, inclusive para os grandes congestionamentos, foram enfatizadas.

As soluções, que deveriam, obviamente, gerar uma cadeia logística forte para escoar a produção do Polo Industrial de Manaus, ajudariam a resolver, dentre outras coisas, o baixo investimento em infraestrutura de transporte.

Nas calendas gregas

Representantes do Poder Público Municipal garantiram que as soluções integrariam, com certeza, o Plano de Mobilidade Urbana de Manaus que ficaria pronto até dezembro de 2014.

A cúpula da Suframa destacou a boa nova no Plano de Mobilidade, assegurando o fortalecimento do compromisso de aprimoramento da infraestrutura logística regional.

Pois o tempo passou. Em 2015, a Câmara Municipal de Manaus aprovou o Plano de Mobilidade da capital, mas as soluções aventadas no evento da TranspoAmazônia foram parar nas calendas gregas.

BNDES/Ministério das Cidades

Em outubro de 2023, o governo Lula anunciou a realização de um estudo visando a elaboração de um plano destinado a encerrar gargalos de mobilidade urbana em 21 cidades brasileiras, com Manaus na vitrine.

Dezembro foi embora e, agora, em janeiro de 2024, os manauenses esperam que o estudo ande – pelo amor de Deus ou sob o terror do Diabo – a fim de que fluam os recursos da parceria Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Ministério das Cidades.

Em Brasília diz-se que o estudo acontecerá até dezembro deste ano, e já há quem coloque as barbas de molho com medo de que tudo não passe de um mero arroubo politiqueiro em ano de caça a votos.

Monotrilho – um engodo

A população manauense tem motivos para desconfiar e duvidar. Afinal, em 2014, ano de Copa do Mundo, o governo Dilma Rousseff anunciou um monotrilho que jamais saiu do papel.

Sabe-se que hoje, subsídios do Governo do Estado e da Prefeitura de Manaus bancam o caótico sistema de transporte coletivo da capital. O déficit de investimentos em transporte público de média e alta capacidade é da ordem de R$360 bilhões, ou um pouco mais, no Brasil inteiro.

Em Manaus, o déficit também é enorme. Logo, altos investimentos federais em mobilidade seriam bem-vindos, ainda mais com a deslumbrante perspectiva da redução das emissões de poluentes.

Políticos medíocres

Enquanto isso, a capital da ZFM segue chafurdando em bagunça administrativa, anarquia urbana e dor social. Como 2024 é ano de corrida eleitoral, talvez surja um novo prefeito com um bom arquiteto de ideias modernas, capaz de transformar para melhor a nossa atual cidade irrespirável.

Mas os eleitores terão que pensar e eleger bem o prefeito e seu arquiteto salvador, o arquiteto, quem sabe, capaz de produzir o milagre de superar o secular drama urbano e social de Manaus à luz da ciência.

O mês de outubro vem aí, e os eleitores precisarão escolher seu novo governante com um perfil diferente dos reis que nas últimas cinco décadas conseguiram apenas bestializar o Centro Histórico e os bairros da periferia à semelhança da sua própria mediocridade.


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