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Coluna:

Por: Walmir de Albuquerque Barbosa

Professor Emérito da UFAM; Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo(USP); Graduado em Jornalismo pela UFAM.

Calçadas da Fama, da Discórdia e das Lembranças

calçada

São muitas pelo mundo, sendo a mais lembrada a Calçada da Fama, em Los Angeles/Hollywood (EUA). Mas, onde quer que exista, é um “caminho calçado ou pavimentado destinado à circulação de pedestres”, na definição mais simples dos dicionários. Mesmo quem não tem o nome eternizado em uma delas, tem um “causo”, um “aperreio” ou uma sequela deixada pelas calçadas esburacadas, sujas, desniveladas ou com obstruções que infernizam nosso caminhar, como queixou-se um amigo meu, dando-me o mote para esta crônica e a quem agradeço.

Desde que cheguei em Manaus, elegi o Salão Grajaú para “fazer o cabelo”. Fica no centro da cidade, Avenida Epaminondas, esquina com a Rua José Clemente, que se estende até o Largo de São Sebastião, passando ao lado do Teatro Amazonas. As suas calçadas são antigas, feitas com as Pedras Lioz, calcário trazido de Portugal nos porões vazios das caravelas e navios, servindo de lastro. Aqui, viraram pedras de calçadas e deram lugar às mercadorias levadas pelas embarcações no retorno à Europa. Gastas pelo tempo, mal cuidadas e desniveladas, tornam-se um perigo. Logo ao sair do salão, há poucos metros, num daqueles momentos de branco total, talvez uma pequena vertigem, quando parece que alguém lhe empurra, fui ao chão. Entortei o aro dos óculos, arranhei as lentes, feri o nariz e os cotovelos e, com muito sacrifício, sentei-me no meio-fio da calçada. Mesmo sangrando pelos ferimentos, senti o desprezo dos transeuntes. Acho que tomaram-me por um mendigo, morador de rua, sei lá. Ninguém ajudou-me. Talvez pela minha aparência. Aliás, já chegaram a me dizer que sou vítima das minhas “alpargatas” e dessas roupas sem grife, que costumo usar. Mas não tomo jeito, gosto delas, lembram minha ancestralidade.

É certo que as calçadas são símbolos da civilização, do urbanismo das metrópoles e de urbanidade: espaços entre a “Casa e a Rua” e têm, portanto, um significado socioantropológico, para lembrarmos Roberto DaMatta e sua obra. Como mobiliário importante da cidade, é regulada por lei, que diz quem é o proprietário e quem delas deve cuidar; estão inscritas nos códigos urbanos das cidades. Tem até regras da ABNT (ABNT NBR 9050:2020), que dizem como construí-las. Podem ser do tipo com paisagismo, com “pisograma”, com pedras, concreto ou “paver” e devem ter uma largura mínima de 1,20 m. Em sendo mais largas, dividem-se em passeio e faixa de serviço, onde ficam postes de iluminação pública, árvores, cabos de iluminação etc. Sim, estão garantidas na Constituição Federal, art. 5°, inciso XV, que diz que qualquer pessoa tem o direito de transitar nos passeios públicos sem ser impedido ou incomodado por qualquer obstáculo. E tem ou tinha etiqueta: quando um cavalheiro passeia com uma dama, deve protegê-la, deixando-a do lado da parede das casas. Portanto, não faltam normas, falta vergonha para que tenhamos calçadas.

Tudo que é humano pode também ser morada da discórdia: conheci um vizinho que acusava o outro de ser preguiçoso, pois não acordava cedo para varrer e lavar a sua calçada; uma senhora, diz o Google, passou óleo queimado sobre o piso para evitar que a criançada brincasse na sua calçada. Semana passada, um senhor, se dizendo “cidadão de bem”, invadiu a Igreja, interrompeu aos gritos e impropérios a missa que estava sendo celebrada pelo Padre Júlio Lancellotti, em São Paulo. Tudo porque o padre é o “Vigário do Povo de Rua” e atende em sua paróquia os desvalidos, dando-lhes comida e a oportunidade de uso dos banheiros da Igreja e, por isso, eles fazem fila nas calçadas das cercanias da Igreja. Diz querer eliminar o padre para ter a sua calçada de volta.

As calçadas não são somente palcos de tragédias ou manifestações de aporofobia. Aguçam, também, nossas memórias: lembranças de nós, pequeninos, brincando na rua com os amigos, e nossas mães, tias e avós tagarelando, descansando da lida, sentadas nas cadeiras espalhadas na calçada. E o “namoro de porta”, com as duas cadeiras na ponta mais escura da calçada?!…

O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do ÚNICO

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