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Negritude no Amazonas

Por: Robério Braga

Membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), advogado e ex-secretário de Cultura do Amazonas

Brigue Independência

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Em todos os carnavais e festejos juninos que se realizavam em Manaus e regiões adjacentes, durante muito anos e pelo menos desde 1914, uma das brincadeiras que folgava em se apresentar pelas ruas e passeando de casa em casa era o “Brigue Independência”, uma espécie de cordão, com música, indumentária e ritual muito especial.

Quem retirou essa informação do ostracismo e de roda pequena de conversa entre amigos foi o sempre admirado mestre e pesquisador Mário Ypiranga Monteiro, seja publicando artigos em avulso pelos jornais de época, seja fazendo editar um livro de sua autoria em que revelou segredos, mistérios e particularidades dessa “brincadeira”, chegando a divulgar o hinário ou versos da cantoria e foto da composição do Brigue, em toda a sua elegância de fardas brancas.

O criador do Brigue foi, precisamente, Lourenço da Silva Braga que se tornaria meu pai muitos anos mais tarde. As primeiras apresentações do Brigue foram pouco antes de 1914, em Manaus, conforme os registros do Jornal do Commercio, mas por algum tempo ele esteve se apresentando no Janauacá, retornando em seguida para a capital amazonense.

Elegantes e vestidos à caráter, conforme as patentes reservadas aos membros da Marinha do Brasil, do gourmet ao almirante, todos tinham função definida e se portavam como tal, seguindo o as ordens dos oficiais e dançando em derredor do brinquedo que era uma pequena embarcação com luzes e todos os apetrechos de uma nau verdadeira. Essa dança provocava grande interesse de famílias que gostavam de gratificar para que se apresentassem nas portas de suas casas, além de desfilarem nos cortejos oficiais e alegóricos do carnaval e de São João.

Certa manhã de sábado, em uma daquelas em que cumpri prazerosa visita a casa de Mário Ypiranga para conversas amenas e de aprendizado, ele tomou nas mãos uma foto em que apareciam o brigue e alguns brincantes em derredor do navio e, com firmeza, apontou o dedo bem a seu modo: “este é o Braga, teu pai e criador dessa brincadeira”. Olhos fixos na pequena fotografia em preto e branco, cheguei a duvidar que fosse porque, em verdade, aquela imagem de rapaz moço não era do meu conhecimento anterior. Mas Mário reafirmou peremptório. Depois, encontrando em arquivo outras fotos e documentos pessoais e antigos, confirmei a assertiva que, aliás, não poderia ser equivocada porque Mário foi um dos amigos e bravos companheiros daqueles anos de meu pai.

Bem antes desse fato que me calou profundamente, eu já havia feito a gravação em áudio, lá pelos fins dos anos 1970, em fita cassete, pedindo a meu pai que cantasse todas as passagens musicais do Brigue. Na ocasião, ao atender a meu pedido, ele me respondeu que compreendia que eu quisesse guardar a sua voz para mostrar aos netos, em época em que não havia outros recursos de áudio e vídeo. Não sei ao certo o que se passou que esta fita foi perdida em meio a turbilhão de documentos e fitas que andava reunindo naquela época. Não me perdoo!

Em outra ocasião, mais recentemente, em férias fora de Manaus, tomei conhecimento que em teatro do Rio de Janeiro estava sendo apresentado espetáculo infantil sobre a “Nau Catarineta” ao qual assisti, me debulhei em lágrimas e sai pelo corredor do shopping acompanhando a comitiva de artistas que animava as crianças presentes. É que o amado Lourenço Braga vez em quando nos surpreendia cantarolando as músicas dessa brincadeira, seguido de comentários sobre a presteza com a qual o grande Demasi, alfaiate de primeira ordem, tecia as fardas que eles usavam em todos os desfiles.

Agora, nestes tempos de carnaval, pareço ouvir sua voz cantando a sua esperança de vir a integrar a Marinha do Brasil a qual era traduzida no Brigue Independência


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