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Bolsonaro comprovou os valores e práticas da democracia do Brasil

Por: Carlos Santiago

Sociólogo, Analista Político, Advogado e Membro da Academia de Letras e Culturas da Amazônia – Alcama.

Beethoven, Schiller e o meu pensar cético

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“Ó, amigos, mudemos de tom! Entoemos algo mais prazeroso. E mais alegre!”, dizia o poeta e filósofo alemão Friedrich Schiller (1759 – 1805), na obra Ode à Alegria, que ficou imortalizada na Nona Sinfonia de Ludwig Beethoven (1770 – 1827) como uma declaração de amor à humanidade, à fraternidade, à razão e aos novos tempos de liberdade. Mas esse sonho e as declarações, depois de dois séculos, não aconteceram. Só sobrou o ceticismo, pois como acreditar nesse tipo de humanidade em que pessoas do mesmo sexo são agredidas nas ruas com ofensas físicas e verbais por andarem de mãos dadas? Como acreditar nessa humanidade em que pessoas do mesmo sexo com armas nas mãos matando milhões de pessoas são tratadas como heroínas?


“Abracem-se milhões! Enviem este beijo para todo o mundo! Irmãos, além do céu estrelado, mora um Pai Amado”. Que poetisa linda e fascinante, meu caro Schiller! Será que isso ainda é possível? Como acreditar no mundo em que bilhões de denominados humanos com livros “religiosos” em mãos e, em nome de Deus, massacram e matam seus semelhantes?


“Alegria bebem todos os seres. No seio da Natureza: todos os bons, todos os maus, seguem seu rastro de rosas.” Muito difícil nos dias atuais, Schiller! Como acreditar nessa civilização em que o bicho homem, que é fruto da natureza, seja o grande destruidor da natureza? Como acreditar que mares, rios, lagos, florestas e matas são destruídos para alimentar a ganância do mercado movido por enfeites e penduricalhos?


“Quem já conseguiu o maior tesouro. De ser o amigo de um amigo. Quem já conquistou uma mulher amável. Rejubile-se conosco!” Ainda não vejo saída, Schiller. Não encontro clima fraternal nessa humanidade. Como acreditar numa civilização em que existe uma organização internacional de países que decide sobre quais os povos devem viver e quais devem morrer, sem qualquer responsabilidade com as dores de mulheres e de crianças?


“Alegremente, como seus sóis voem. Através do esplêndido espaço celeste. Se expressem, irmãos, em seus caminhos. Alegremente como o herói diante da vitória”. A alegria é triunfo de poucos, com tantas misérias e sofrimento, meu filósofo Schiller. Como acreditar no mundo humano em que armas de fogo e motosserras são símbolos de campanhas políticas vencedoras? Isso não pode ser alegria!


Como acreditar nessa humanidade onde milhões choram, gritam e sorriem por time de futebol, mas ficam silenciosos diante da miséria e pobreza de milhões de crianças? Como acreditar no mundo em que as autoridades públicas possuem auxílio financeiro de saúde, de auxílio moradia e para a educação dos seus filhos, enquanto o povo, que paga pesados tributos, sofre em filas médicas esperando cirurgias?
Mais de dois séculos depois dos sonhos de Friedrich Schiller, que acreditava que a arte tinha uma missão revolucionária de educar o homem para a construção de um mundo unificador, e da genialidade musical de Beethoven, que sempre acreditou na força da comoção da alma humana e de liberdade da música, mesmo com surdez absoluta, quando compôs a Nona Sinfonia, os desejos de ambos pararam nas guerras, nas bombas nucleares e na incapacidade de criar um mundo de paz e de justiça social.


E a arte foi transformada num mero instrumento de dominação, de justificação de mortes e de gritos, de escritos e de falas que não são ouvidas. Não tenho como não ser um cético dessa humildade construída. Ainda bem que existe a música de Beethoven e os escritos de Schiller para aliviar um pouco o meu pensar cético.


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