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Negritude no Amazonas

Por: Robério Braga

Membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), advogado e ex-secretário de Cultura do Amazonas

As boas leituras

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Quem primeiro se ateve nessa importante particularidade da vida cotidiana de Manaus da “belle époque”, pouco antes e além depois (1870-1920), de modo a referenciar quais autores eram lidos, claro que pela parte letrada e de formação acadêmica mais elevada aqui estabelecida, foi mestre Genesino Braga ao tomar como ponto de partida o ano de 1871 e indicar autores e obras preferidas da ocasião. E o fez com a maestria de sempre, encantando seus leitores.

Na semana passada tive a ousadia de trazer a público um recorte das entrevistas realizadas pela “Revista Cá e Lá” com algumas personalidades bastante conhecidas na primeira vintena dos anos 1900, em cujo artigo referi os autores escolhidos por cada uma delas e com os quais se deparavam na mesa de cabeceira, nas cadeiras de embalo postas nas portas de suas casas ou nos gabinetes de estudo e de trabalho, tão comuns à época. E pelo que escreviam nos jornais e revistas, e em discursos proferidos, não era mero exibicionismo dizer que liam tais autores.

Essa indicação causou alguma surpresa em certos pesquisadores, pois, tempos passados, escrevera indicando uma lista de livros e revistas vendidos em casas comerciais da capital amazonense nesse mesmo período histórico e o que se viu foi um mar de futilidades e coisinhas sem relevância. Tem razão o inquietado leitor, mas isso talvez se deva ao fato de que tais livretos, folhetos e revistas estivessem à venda para atender um público menos encorajado a boas leituras e mais acostumado a gibis e folhetins.

A Revista de Aprígio de Menezes tinha apresentação gráfica adequada, ilustração de nível e conteúdo de qualidade, e contava sempre com a participação dos principais escritores e publicistas mais prestigiados. Os jornais “A Imprensa”, “O Tempo”, “Gazeta da Tarde”, “Jornal do Commercio”, “O Commercial”, “Folha do Povo” o até mesmo o “Diário Official”, além das intrigas e futricas políticas e da defesa dos interesses partidários que representavam, abriam espaço para alguns bons artigos de fundo e poesias.

Não é possível olvidar, entretanto, os inúmeros autores que os homens letrados liam (sim, porque a esmagadora maioria das mulheres ainda não havia tomado posição mais visível na sociedade amazonense, pelo menos no campo das letras e da imprensa, voltadas para vida doméstica e, no máximo, para o magistério), portanto, os homens liam e reliam Flaubert, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Heredia, Balzac, Bilac, Alberto de Oliveira, Vicente de Paulo, Francisco de Assis, Aquilino Ribeiro, Sócrates, Cervantes, d´Annunzio, Stechetti, Emílio de Meneses, Tristão de Athaíde, Carlos Dias Fernandes, Allan Kardec, Bíblia, Alcorão, Aristóteles e Platão, por exemplo.

Dentre os escritores locais, em sua maioria sem livros publicados, mas com artigos continuadamente lançados na imprensa, liam Adriano Jorge, Pericles Moraes, Taumaturgo Vaz, Raimundo Monteiro, Jonas da Silva, Bento Aranha, barão de Sant´Anna Nery, J. Maranhão, Heliodoro Balbi, Américo Antony, Huascar de Figueredo, Raul de Azevedo, Araújo Lima, João Leda, Mavignier de Castro, Benjamin Lima, Álvaro Maia, Tristão de Salles, Alfredo da Matta, Carlos Chauvin, Gaspar Guimarães, José Chevalier, Cid Lins, Theodoro Rodrigues, Annibal Amorim, Costa Moreira, Coriolano Durand, Raymundo Cantanhede, Ozéas Motta, dentre tantos outros.

Apenas uma mulher dava o ar da graça e elegância com poemas lançados na revista “A Illustração” (1909): Mathilde Areosa, mas ainda de forma tímida, como se estivesse pedindo licença, enquanto Raymunda Chevalier se expunha na direção de escola e principiava o que, nos dias correntes, se denomina de defesa dos direitos da mulher, a ponto de ser convidada a disputar vaga na Assembleia Constituinte estadual de 1935 pelo Partido Trabalhista Amazonense, e, tendo recusado, abriu espaço para a candidatura de Maria Miranda Leão que foi eleita.


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