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A família de Nietsche

Por: Luís Lemos

Professor, filósofo e escritor, autor, entre outras obras de: Filhos da quarentena - A esperança de viver novamente. Editora Viseu: Maringá-PR, 2021

Amor de Carnaval

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Excitada com a perspectiva de ver sua escola de samba desfilar na avenida, Mariana se lançou para o Sambódromo. “Não posso chegar atrasada”, pensava. Quando o motorista por aplicativos chegou, já estava quase sem ar. “Vamos, vamos!”, ordenou. “O mais rápido que puder”, insistiu. “Sim senhora! Aqui quem manda é o cliente”, disse o motorista.


Umas três ruas antes do ponto final da corrida, o motorista disse: “Há uma fila de carros bem na nossa frente, bloqueando completamente a passagem”. “Não é possível”. “Sim senhora, é possível, veja?!”, disse o motorista apontando para um congestionamento quilométrico. “O senhor não conhece outra rua, um caminho alternativo?”. “Infelizmente não, senhora!”. “Ó meu Deus! Venha ao meu socorro!”, exclamou Mariana. “Não coloque Deus no meio disso!”, respondeu abruptamente o motorista.


Depois de um momento de silêncio, Mariana perguntou ao motorista: “O senhor é satanista?”. O motorista franziu a testa e respondeu com outra pergunta: “Por que a senhora está me perguntando isto?”. “Porque o senhor me repreendeu quando eu clamei por Deus, pela ajuda divina”, respondeu chateada Mariana. “Não é isso! É que eu acho que Deus não tem nada haver com carnaval”. “É sério que o senhor pensa assim?”. “Sim senhora, é verdade e lhe digo mais…”.


Em poucos minutos o motorista contou-lhe toda a sua vida, que era breve e triste, marcada por pequenos roubos e furtos. “Tudo o que eu tenho hoje na vida, inclusive este emprego, eu devo a Deus. Sem Ele nada somos”, disse. Mariana pensou em voz alta: “É assustador como ainda hoje, em pleno século 21, tem gente que acredita na teologia da prosperidade”. O motorista perguntou: “O que é isto, teologia da prosperidade?”.


Mariana não estava com disposição para palestrar sobre “teologia da prosperidade” para aquele homem, ainda mais porque ele parecia ser uma pessoa bastante tacanha. Tudo o que Mariana mais queria era poder chegar logo ao Sambódromo e cair no samba com a sua escola do coração. Mas como isto estava se tornando quase que impossível, porque o carro não saia do lugar, ela lançou um olhar enigmático para o motorista e em seguida perguntou-lhe: “O que é o carnaval para o senhor?”. “Carnaval é a festa da carne, da traição, do sexo sem compromisso, do pecado, da perdição”, respondeu instantaneamente o motorista.


Mais uma vez Mariana estava decepcionada com a fala daquele homem, exausta e até um pouco impaciente, mas mesmo assim ela ponderou sobre sua definição de carnaval e pensou numa solução para fazê-lo mudar de opinião, dizendo que ele estava certo. “Mais para mim carnaval é alegria, celebração, confraternização, arte, cultura, festa popular”, disse. E citando Dom Helder Câmara, Mariana continuou: “Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval”.


O motorista refletiu sobre as palavras que acabara de ouvir. Ele não conseguia se lembrar de muitas pessoas que eram felizes simplesmente sendo falsas. “Você tem razão. Tenho certeza que nenhum folião de verdade vai deixar se influenciar pelas afirmações negativas sobre o carnaval”, disse. “Vou estacionar o carro, aqui, no acostamento e vou lhe acompanhar até o sambódromo”. Mariana confessou que estava desapontada, mas concordou com ele: “Certamente a pé chegaremos primeiro que estes carros!”. O motorista riu e disse: “Então vamos!”.


O calor, a umidade do ar e as buzinas dos carros tornavam a hora sufocante. Qualquer esforço era um verdadeiro sacrifício. O caminhar pela Avenida Constantino Nery com aquela roupa de carnaval, cheia de plumas e paetês, era acompanhado por um cheiro forte de cerveja e de cigarro, que o vento fazia rodopiar e o suor forte que escoria pelo corpo do motorista tornava tudo ainda mais difícil, até que ambos, em vertigem, caíram abraçados na sarjeta.


A falta daqueles seres, a família logo sentiu. Cedo, ao raiar do dia, saíram a procurar. Abraçados na sarjeta alguém viu. Nove meses depois a barriga de Mariana explodiu. E um lindo bebê nasceu. “Francisco será o nome dele”, disse Mariana. “Porque assim me disse antes de morrer quem o concebeu”. Todos aplaudiram aquela linda história de amor e uma lágrima do olhar de Mariana rolou. “Viva o amor, mesmo que seja de carnaval”, finalizou.


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