Alfredo, um homem invisível

Final de tarde de sexta-feira, 01/12. Raiou dezembro, o mais belo mês do anos.

Findo o expediente de trabalho, me encaminho ao maior shopping da cidade. Lugar que pouco frequento, por ser grande e distante. Inicio das festas natalinas, tenho que aproveitar o que sobrou da black friday. Recebi, via WhatsApp, mensagem que determinada loja estava com promoção de 60% de desconto, em seus últimos dias. Mesmo já tendo desacelerado meu ímpeto consumista, resolvi ir ao shopping antes da enxurrada de gente, próximo ao Natal. Compras feitas, pequeninas lembranças para pessoas próximas, me encaminho para um Café na praça de alimentação. Escolho um café coado, entre dezenas de opções, algumas que nem sabia que existiam. Sou tradicional em meus pedidos, avesso às novidades gastronômicas.

Sentado, observo o frenesi de pessoas ao meu entorno. Chama minha atenção um senhor uniformizado a limpar as mesas. Esse trabalho, em geral, é feito por mulheres. Ao aproximar-se, ouço a gentileza dele em desejar “boa noite” aos ocupantes das mesas próximas. Ao aproximar-se da mesa onde estou sentado, me deseja “Boa noite”, com voz serena e sorriso tímido.

“Boa noite”, respondo-o. Curioso, puxo conversa.

-Qual o seu nome?

-Alfredo, mas pode me chamar de Alfred, o mordomo do comercial de TV. Nasci para servir.

-Qual sua idade?

-Cinquenta e seis anos.

Pensei ser bem mais velho, disse para meus botões. Carcomido pelo tempo, mostra severas marcas na face, de uma vida sofrida. Alto, magro, pouco cabelo, lembra um homem de 70 anos.

-Há quanto tempo o senhor trabalha aqui?

-Uma semana, estava desempregado, estou em experiência.

-O que o senhor fazia antes?

-Moço, já fiz de tudo na vida: fui ajudante de pedreiro, trabalhei em cemitério, vigia de sítio, fiz capina, e ultimamente estava parado em casa.

-O senhor tem mulher e filhos?

-Tenho não, senhor. Nunca dei certo com mulher. Tentei algumas vezes, mulher é coisa complicada. Não tenho filhos.

-Com quem o senhor mora?

-Morava com minha mãe. Ela morreu, vivo na casa de um irmão, de favor.

Me falou que vai para casa do irmão quando o shopping fecha, após arrumar tudo para o dia seguinte, depois das 23:00 h. Como ainda não recebeu o primeiro salário, nem vale transporte, tem que ir a pé.

Conta melancólico, que na noite anterior quase fora assaltado; teve que correr muito para se livrar dos meliantes.

-Moço sou quase invisível aqui, ninguém nota minha presença. O senhor é a primeira pessoa que pergunta o meu nome, onde moro. O senhor não tem ideia de como fico feliz em conversar com alguém.

Olhei-o mais uma vez, desejei-lhe sorte, que seja efetivado, que receba seu salário, que seja feliz.

Ele limpou a mesa em que estava, recolheu a xícara e as sobras.

-Boa noite, senhor, me desejou Alfredo, ou melhor, Alfred, o homem que nasceu para servir.

Ainda tive tempo de vê-lo desejar “Boa noite”, aos casal da mesa ao lado. Ambos, absortos com seus smartphones, não olharam na direção de Alfredo.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *